Vip Exame, junho:
O bug do réveillon


Onde você vai passar o réveillon do ano 2000?

Nunca tanta gente esteve tão empenhada em decidir, com tamanha antecedência, onde passar uma noite. É como se todo mundo tivesse marcado seu casamento para a mesma hora: 31 de dezembro de 1999, alguns momentos antes da meia-noite. Milhões de pessoas são esperadas em Greenwich, nas cercanias de Londres, que é uma espécie assim de Residência Oficial do Tempo. Dezenas de milhares vão se bandear para ilhotas do Pacífico, só pelo privilégio de ser os primeiros a comemorar a chegada do novo milênio (Tonga, por exemplo, promete fazer um réveillon da mironga do kabuletê). Os carolas já estão de malas prontas para Roma ou para a Terra Santa. Os metidos a besta se apressam em arrematar os últimos lugares em festas privês ao pé das Pirâmides, no topo de Machu Picchu ou com vista para o Taj Mahal.


Na verdade, como você já deve ter ouvido falar, esta festa não vale rigorosamente nada: o próximo milênio só vai começar de fato 366 dias mais tarde, em 1o. de janeiro de 2001. Como os romanos não conheciam o zero (você por acaso já viu zero em números romanos? Não é I, não é X, não é L, não é C, não é D: não existe), o ano do nascimento de Cristo foi dado como o ano 1. Se tivesse existido o ano zero, o segundo milênio começaria, sim, no ano 2000 (0 + 2.000 = 2.000). Mas como a contagem já começou no 1, a placa dos milênios sempre terá final 1 (1 + 2.000 = 2.001).

A massa pode até comemorar, mas vai ter um bandeirinha CDF com a bandeira levantada, sinalizando impedimento. No dia seguinte, em meio à maior ressaca coletiva da história, os juízes vão decretar: não foi gol. Então vamos começar tudo de novo, e o réveillon do milênio só vai valer um ano depois, no replay.


Mas -- quer saber? Ninguém está nem um pouco interessado na verdade científica. O que importa é a mágica do número redondo, o esoterismo dos três zeros seguidos, as profecias de Nostradamus, o fim anunciado do mundo -- e ele: o bug do milênio. Assim que bater a meia-noite, toda a vida eletrônica sobre a face da Terra, tudo o que dependa de chips para funcionar, desde fornos de microondas até usinas nucleares, passando pelos bancos de dados de instituições financeiras e governos, corre um considerável risco de entrar em pane.

O que é mais um motivo para a gente:
a) guardar todos os recibos;
b) beber até o sol raiar.


As grandes corporações afirmam que o bug já está sob controle no mundo ocidental, e que o máximo que pode acontecer é uma explosãozinha ou outra de usina nuclear no Uzbequistão, talvez um choquezinho à toa de aviões no espaço aéreo da Coréia do Norte. Ou seja, as empresas e os governos já se prepararam para o réveillon. Mas a grande maioria das pessoas físicas ainda não mexeu sequer uma palha para garantir um lugar nessa festa -- ou pelo menos garantir essa festa em algum lugar.

Ainda dá tempo? Se você ligar para qualquer hotel aonde valha a pena ir, a resposta é sempre a mesma: está lotado, mas aceita nomes na lista de espera. A lista de espera existe porque quase ninguém pagou suas reservas. E quase ninguém pagou suas reservas porque os preços estão na Lua.


No Rio, que sem dúvida vai ter o réveillon mais espetacular do planeta, é difícil achar um hotel na Avenida Atlântica por menos de R$ 1.500 a diária -- eu falei a diária. Dúvidas:
1) Aceita Lei Rouanet?
2) Se conseguir atestado, dá para pedir reembolso no plano de saúde?
3) O financiamento é por banco privado ou pelo SFH?
Em Copacabana chega a haver três-estrelas (a duas quadras da praia) cobrando R$ 2.600 por um pacote de cinco noites. Pelo mesmo preço, um casal que more em São Paulo pode ir e voltar do Rio todos esses 5 dias pela ponte aérea. De quebra, ele e ela ganham, cada um, 10 mil milhas na Varig (ou duas passagens de ida pela TAM a qualquer lugar do Brasil).

Os preços enlouqueceram porque o réveillon do ano 2000 é o feriadão mais importante da história da humanidade. Como não existe termo de comparação -- na última virada de milênio, no ano de 999, a indústria do turismo não estava, digamos assim, tão desenvolvida -- o mercado está claramente sendo testado.

Conversando com alguns agentes de viagem, porém, avista-se um fogo de artifício no fim do túnel. "Esses preços não se sustentam. Assim que os hotéis começarem a cobrar os depósitos, o pessoal cai fora", me disse um. Outro, não tão otimista assim, acha que "os hotéis superluxo vão acabar cobrando o que quiserem. Mas os hotéis mais simples estão extrapolando".


O que nos traz ao verdadeiro bug do réveillon, que é a paranóia. Ou você entra já na paranóia e arrisca pagar caro demais, ou deixa para depois e fica mais alguns meses na paranóia de não saber se vai sobrar lugar.

Como fazer, então?


A melhor estratégia é trabalhar com duas alternativas.
Inscreva-se na fila de espera para alguma comemoração grandiosa, mas mantenha uma solução caseirinha à mão. Se na hora do vamos-ver o plano luxo se mostrar financeiramente inviável (ou se não sobrar lugar), é só pôr em prática a operação vida real.

Lembre-se: é só mais um réveillon.
Claro que a ocasião justifica extravagâncias maiores. Mas é sempre bom ter em mente que a mudança do milênio vai ser fisicamente menos perceptível do que (lembra?) a passagem do cometa Halley.

O ano 2000 vai chegar onde quer que você esteja.
Mais importante do que o lugar onde você vai passar a virada do milênio é o modo que você vai comemorar. Uma festa de arromba com a sua turma, na sua cidade mesmo, pode ser mil vezes mais divertido do que passar o réveillon numa terra estranha, sem conhecidos.

É melhor ficar no Brasil.
Nenhum povo tem o know-how do brasileiro para se divertir em réveillon. Enquanto nos países frios a festa mais importante da temporada é sempre o Natal, no Brasil há muito tempo a gente comemora com mais entusiasmo a virada do ano. Além do quê, o nosso repertório de superstições de ano novo -- vestir branco, pular sete ondas, jogar uma rosa no mar -- combina perfeitamente com o espírito da virada do milênio. Nenhum brasileiro precisa viajar a pólos esotéricos para entrar no clima new age que a ocasião pede: basta repetir o que sempre se fez por aqui.

Se puder, vá para o Rio de Janeiro.
O réveillon de Copacabana é, hoje, a festa mais bonita do mundo -- mais bonita até do que o carnaval do Rio. Dois milhões de pessoas vestindo branco da cabeça aos pés, as velas acesas em buracos escavados na areia, os barquinhos de oferendas lançados ao mar, a competição de fogos de artifício entre os hotéis -- o réveillon do Rio é primeiro lugar tanto na categoria luxo quanto na categoria originalidade.

Evite viajar dia 31 de dezembro.
Ou leve um isoporzinho com gelo e champagne, porque talvez você tenha que comemorar o réveillon do milênio no aeroporto ou na estrada.


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