Postal por escrito: Petra, Jordânia No meu roteiro original (leia "Oriente Próximo", no capítulo "Roteiros-rodízio") eu não previa vir até Petra -- pela dificuldade de acesso,e pelo ritmo já suficientemente frenético do resto da viagem. Mas foi só eu mandar o capítulo para minha editora e book-sitter Pinky Wainer, que ela me mandou um e-mail instantâneo: "Como assim, você não vai a Petra? Vai até lá pertinho, e não vai passar em Petra???" Não que a Pinky compartilhe de minha religião. Pinky tem uma preguiça do tamanho de um Boeing para fazer qualquer viagenzinha que envolva mais que um check-in. Ela é daquelas pessoas que ficam cansadas só de ler o meu livro, e que agradecem aos deuses por não precisar se meter nesses lugares onde Judas perdeu as botas (ou onde Krishna perdeu as sandálias, não importa). Eu só tenho uma coisa a dizer: obrigado, Pinky Wainer. Ter vindo até Israel e não dar uma esticada até Petra teria sido uma mancada homérica (ou heródica, sei lá). Caso você nunca tenha ouvido falar, Petra é uma cidade quase mítica que permaneceu perdida durante mil anos. Só no início deste século é que as escavações começaram a descobrir as fachadas elegantemente greco-romanas esculpidas nas encostas de seus morros. Para chegar até lá você precisa passar por um canyon estreitíssimo que serpenteia por dois quilômetros até que você aviste a primeira e mais famosa das fachadas de Petra - o Tesouro. A primeira visão do Tesouro, de revesgueio, surgindo no final da fenda, é daquelas coisas que pedem um "Uau" -- e não há quem não solte um, mesmo nessas línguas desprovidas de vogais tipo alemão ou uzbequistanês. As ruínas de Petra já seriam impressionantes onde quer que estivessem - mas a sua localização logo depois do canyon estreitinho e interminável é o que faz da viagem a Petra uma aventura saída diretamente dos livros de Tintim. Não é por acaso que a seqüência final de "Indiana Jones e a Última Cruzada" foi filmada aqui; o difícil é acreditar que isto já existia, que não foi o pessoal do Spielberg que construiu e depois deixou para trás. Os guias recomendam no mínimo dois dias inteiros dedicados às ruínas - bobagem. Se você não pretende prestar vestibular para Arqueologia, um dia é mais do que suficiente. Na verdade, nada vai superar a emoção da chegada - mas é necessário encher uma certa lingüIça para justificar a vinda até aqui, e então você aproveita para tirar aquele rolo inteiro de fotos iguais que seus amigos vão fingir interesse em ver. No final das contas a gente anda tanto - a segunda fachada mais importante, o Mosteiro, fica no final de uma escalada semi-aeróbica de 45 minutos - que é bom ter um dia extra para descansar na piscina do seu hotel. Petra fica a 230 km do aeroporto de Amman, 2/3 deles por uma auto-estrada de duas pista e asfalto impecável. O hotel mandou um carro me buscar por o que eu pensava serem razoáveis 60 dinares - até eu descobrir que 1 dinar vale US$ 1,40. Mas se não fizer falta no fim do mês para você completar a pensão judicial dos seus filhos, vale a pena. O sujeito puxou 140 km/h na estrad (o limite era 100 km/h, o carro era japonês, o motorista era seguro), e a gente chegou em meras 2 horas. O hotel, o Mövenpick, consegue até ser charmoso para um hotel de rede internacional,e fica exatamente na porta de entrada de Petra. (Com a mesma localização, boa estrutura e pela metade do preço, dá para ficar no Petra Rest House). Pena que era o feriadão de aniversário do rei Hussein, e nem tentando 3 meses antes eu consegui reservar o Taybet Zaman, o hotel rústico-chique que recria um vilarejo rural da Jordânia do século passado. Mas fomos jantar lá, e voltamos quase tão boquiabertos quanto na primeira visão do Tesouro em Petra. O único ponto baixo de todo o trecho foi na saída de Israel, no check-in do aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv. Assim que a minha raiva baixar e eu arranjar tempo de escrever uma loooonga história, eu conto o que os passageiros em direção à Jordânia sofrem nas mãos das estagiárias da Mossad. Petra, 15 de novembro, 1998. |