Adorei seus postais de Paris. Que roteiros você sugeriria para quem quer andar a pé em Paris, com paradas gastronômicas?
A pergunta é da Ana, que é de Minas e adorava caminhar no tempo que morava em Nova York.
Vamos lá:
De Les Halles ao Marais, com brasserie, cybercafé e cuscus marroquino
Comece ao meio-dia e pouquinho no Au Pied de Cochon (6, rue Coquillère, metrô Châtelet-Les Halles), onde você vai almoçar um plateau de ostras ou de frutos do mar, regado por uma ou duas taças de champagne. (Encerre com um espresso para não sair muito zonzinha.) Se você não quiser começar com um almoço, pode iniciar o dia com um cineminha na Cité-Ciné Gaumont Les Halles -- são 18 salas moderníssimas passando filmes novos desde 9 horas da manhã, bem ali embaixo desse jardim que na verdade é um shopping subterrâneo, Les Halles.
Continue pela rue Coquillère; ela vai virar rue Rambuteau e vai dar no Beaubourg, o centro de artes que é o logotipo modernoso de Paris. Admire a fauna do lado de fora, os mochileiros e desocupados e turistas e clandestinos bolivianos tocando flautas andinas, e depois dê uma entradinha para ver que exposição está rolando.
Atravesse o Boulevard de Sébastopol e continue pela rue Rambuteau. Várias lojinhas de comida vão se suceder dos dois lados da calçada -- você vai ficar enjoada com os cheiros mas fascinada pelo jeito francês de expor os alimentos; joalheria perde.
Quando a rue Rambuteau virar rue des Francs Bourgeois, você está chegando ao Marais, que é o equivalente parisiense do SoHo nova-iorquino. É aqui que estão as lojinhas mais transadas e os turistas mais interessantes, onde você encontra desde a rua remanescente do gueto judeu de Paris até o centrinho gay da cidade. A partir da rue du Temple, dê a volta em todos os quarteirões entre a rue des Francs Bourgeois e a rue de Rivoli, explorando ruas como a rue de la Verrerie, a rue du Roi de Sicile, a rue des Rosiers (onde está a deli judaica mais famosa de Paris, Jo Goldenberg) e a rue Vieille du Temple (cheia de cafés GLS).
Depois da rue Vieille du Temple, continue pela rue des Francs Bourgeois até o final, quando ela acaba apoteoticamente na Place des Vosges -- simplesmente a praça mais bonita de Paris. Dê uma volta pelas arcadas, começando pelo antiquário com peças expostas na calçada bem à sua frente. No número 28, entre e bisbilhote o hotel mais charmoso da cidade (meu endereço favorito em Paris), o Pavillon de la Reine. Continue dando a volta na praça; tente achar a loja (discretérrima) de Issey Miyake. Entre na pracinha; finja que você é uma francesa ocupada em seu passatempo oficial, flanar (flâner). Dê seus suspiros finais a bordo de uma mesa no Ma Bourgogne, o café no final da arcada, tomando um espresso ou um vinhozinho tinto ou mais uma taça de champagne, dependendo do tamanho de sua gratidão aos deuses por estar ali naquele momento.
Volte pela rue des Francs Bourgeois até a rue Vieille du Temple; vire à a direita. A rua não tem nada demais, e você vai ficar pensando onde é que eu estou fazendo você se meter. Quando você alcançar a rue de Bretagne (a 6a. travessa), vire à esquerda. Atravesse a rua, e vire à direita quando chegar a Rue de Picardie. Vá até o final: no número 32 você encontra o Web Bar, onde você pode mandar e-mails para todos os seus amigos dizendo como você está adorando caminhar em Paris. A comida é gostosinha e barata, a freqüência é jovem e descolada -- se quiser, vale a pena jantar ali. Querendo arriscar algo diferente, volte até a rue de Bretagne, atravesse para a outra calçada, e no número 47 você encontra o Chez Omar, um sujinho belle-époque que serve o couscous marroquino preferido dos jornalistas de moda e modelos duras de Paris. Como já deve ser a hora do jantar, mesmo...
Da île Saint-Louis a Montparnasse, via Saint-Michel e Jardin du Luxembourg
Comece depois das 11 da manhã em Notre Dame (metrô Cité). Visite a catedral, depois contorne a igreja em direção aos fundos. Lá você atravessa uma ponte e pronto: chega à minha ilha preferida no mundo, a île Saint-Louis.
Visite as lojinhas da rue Saint-Louis-en-l'Île (não deixe de ver as maluquices da Pylônes, bisbilhote os hotéis (fique pensando em qual deles você vai querer se hospedar quando voltar) e tome um sorvete Berthillon em qualquer portinha onde haja uma fila.
Contorne a ilha por fora (não existem lojinhas nem turistas) e volte pela pontezinha de onde você veio. No final da ponte, vire à esquerda e continue pela ponte em frente. Atravesse a rua (quai de la Tournelle) e pegue a rue de Bièvre ligeiramente à sua esquerda. Ela vai continuar pela rue de la Montagne Ste.-Geneviève, que tem muitos restaurantes exóticos freqüentados por estudantes da Sorbonne, que fica ali perto. Você está no coração do verdadeiro Quartier Latin -- o Quartier Latin dos estudantes, não o dos turistas. No meio da subida você pode virar à direita na rue Laplace e fazer um almoço delicioso, diferente e barato no Flavien et Songmala, um pequeno e charmosíssimo restaurante cambojano (9 rue Laplace, tel.: 01-43-29-47-85). A rue de la Montagne Ste.-Geneviève acaba no Panthéon, um dos mais bonitos edifícios neoclássicos de Paris. De lá você pode pegar a rue Cujas e atravessar o Boulevard St.-Michel, que você vai dar na rue de Vaugirard.
Dali a duas ou três esquinas você pode virar à direita para ver o Odéon, agora também conhecido como Théâtre de l'Europe. Se você continuar em frente, vai dar em Saint-Germain. Se voltar, continua o nosso passeio. O programa agora é uma entrada no Jardin du Luxembourg, que é o equivalente mais próximo de um Central Park parisiense. O barato aqui é ler o seu livrinho sentada num dos bancos de metal verdinhos espalhados pelo parque, vendo os franceses se divertindo com seus filhos preferidos -- os cachorros. Quando cansar de descansar, volte pela rue de Vaugirard e siga até ela encontrar nosso destino final, o Boulevard de Montparnasse. Aqui você tem dois interesses: as brasseries (a mais animada delas, o La Coupole e os cinemas. Estabeleça a ordem do seu programa de acordo com o horário que você chegou, e bom fim de dia parisiense.
De Saint-Germain aos Champs-Elysées, com Quai d'Orsay e pirâmide do Louvre
Venha à superfície na estação Odéon, bem no coração da cinelândia de St.-Germain. Atravesse o boulevard Saint-Germain e continue à esquerda (na direção oposta a Saint-Michel). Mais adiante, no número 172, você pode dar uma paradinha no célebre Café de Flore para um capuccino -- ou logo ali mais um pouco, no Les Deux Magots. Os dois hoje são completamente turísticos, mas têm lá o seu charme. Depois entre em qualquer rua à direita e explore as ruelas de Saint-Germain, com suas livrarias, galerias e antiquários. Mesmo sem querer, você deve acabar descobrindo o Quai d'Orsay, que era uma estação de trem e hoje é o museu mais bonito (arquitetonicamente falando) de Paris. Você pode aproveitar para almoçar no seu restaurante, que é ótimo.
Saindo do museu, de frente para o Sena, volte um pouco à esquerda e atravesse o rio pelo pont du Carroussel, que vai dar na praça interna do Louvre, com direito à visão da Pirâmide. Continue à esquerda, pelo meio do Jardim das Tulherias -- você vai dar em frente ao Obelisco da Place de la Concorde, que veio do templo de Lúxor, no Egito.
Suba à direita, pela rue Royale. Depois, vire à esquerda na rue du Faubourg Saint-Honorê -- o endereço de todas as grifes da haute-couture parisiense. Brinque de ver vitrines por quadras e mais quadras; vire à esquerda só na avenue Matignon, que vai levar você até um balão de nome Rond-Point des Champs-Elysées, que fica ao pé da avenida. Se você ainda tiver pernas, suba até o Arco do Triunfo; senão, escolha um café para tomar alguma coisa forte, que você merece. Se você quer ir a um show durante sua estada em Paris, entre no quiosque da Fnac que de repente ainda tem lugar (eu consegui ingresso para ver a Des'rée dois dias antes do show).
Leve um sapato bem usado e confortável, e bon voyage!
Para viajar melhor ou simplesmente dar um monte de risada, leia Viaje na Viagem: dê um pulinho já na Siciliano Virtual.
|