Postal por escrito: Paris
Tenho por Paris a afeição que as pessoas normais costumam devotar a Nova York, Londres ou Barcelona. Gostar de Paris, hoje em dia, parece ser uma espécie de perversão reservada aos muito sofisticados, aos muito afetados ou às muito peruas. Gostaria de esclarecer que eu (ainda) não me classifico em nenhuma dessas categorias.
O que me atrai em Paris não são seus restaurantes celebrados nem o vitrinódromo da rue du Faubourg Saint-Honoré. Na verdade, me satisfaço plenamente com pratos manjados de brasserie ou jantando nos vietnamitas mais vagabundos, e só entro em loja quando preciso comprar cartão telefônico.
Gosto de Paris pelos mais mundanos dos prazeres -- caminhar, ir ao cinema, tomar sorvete. Paris é indiscutivelmente o maior triunfo do urbanismo sobre a natureza, e eu, metropolitano convicto, dou uma passadinha aqui sempre que posso, para recuperar minha fé nos incríveis poderes curativos de andar na rua.
E põe andar nisso. A temperatura tem se comportado de maneira moscovita (máximas de 1 ou 2 graus Celsius todos os dias), o metrô está mais limpo do que nunca (só pode ter sido a Copa), mas eu só não vou a pé quando está chovendo. Pior: fico inventando os percursos mais longos possíveis, que me forçam a cruzar a cidade do jeito mais esbaforido (senão eu morro de frio). Com o quê, minha Paris é a mais deslumbrante esteira aeróbica do mundo. E o que é melhor: grátis.
Ontem, um sábado, depois de passar a manhã trabalhando no laptop aqui no meu hotel da île Saint-Louis, fui até a Chinatown do 13ème. arrondissement almoçar num vietnamita recomendado pelo Gault-Millaut (45 min) -- ângulos inesperados do Panteão no caminho. De lá atravessei a cidade para ver a exposição de Pierre & Gilles que abriu numa galeria da avenue Matignon (1h30min) -- passando por uma feira livre perto da Sorbonne, pelas Tulherias, place de la Concorde e rue du Faubourg Saint-Honoré. Depois, duas sessões de cinema na cinelândia dos Champs-Elysées (7 min). De lá para um indiano perto da rua Montmartre ( 30 min) e então de volta para a île Saint-Louis (45 min) para começar a escrever este postal. Na próxima encarnação eu quero ser um ônibus de dois andares.
Planos para hoje: almoçar num tailandês em Belleville (45 min), daí a Saint-Germain (1 h) para duas sessões de cinema e então de volta ao hotel (20 min) para escrever os postais sobre os dois prazeres mais acessíveis de Paris (depois de andar a pé, evidentemente): as cinelândias e a íle Saint-Louis.
Paris, 6 de dezembro, 1998. |