Postal por escrito: Ouarzazate, MarrocosSe você está comparando esta viagem com o roteiro original publicado no meu livro (sob o título "Oriente Próximo", no capítulo "Roteiros-rodízio"), então você sabe que depois de Casablanca eu iria para Fès. Quinze dias antes do embarque, porém, o hotel onde eu ficaria (o Palais Jamaï) mandou um fax comunicando que iria fechar para reformas. Em vez de mudar de hotel, eu resolvi mudar de Marrocos: no lugar do Marrocos imperial de Fès, o Marrocos bérbere de Ouarzazate. A 40 minutos de vôo de Casablanca -- ou 3h30 de carro de Marrakech -- Ouarzazate é a porta de entrada para quem quer usar o Marrocos para brincar de "O céu que nos protege" ou "O paciente inglês". A cidade em si não é nada, mas serve de base para excursões de Land Rover que valem por road-movies. A expedição mais procurada é a rota de Zagora -- uma estrada de 160 km (3 horas) onde os que sobrevivem às curvas vertiginosas da (absolutamente chapante) primeira metade da viagem, atravessando as montanhas, são recompensados pelo palmeiral interminável do vale do rio Draa, com seus rústicos vilarejos terracota e suas fotogênicas kasbahs abandonadas. Se você dormir em Zagora, pode fazer excursões de moto-buggy ou de camelo pelo deserto. Se não dormir lá, não tem problema: o motorista do seu Land Rover leva você até umas dunas bem pertinho onde, se você caprichar na angulação, pode voltar para casa dizendo que passou dias no Sahara -- ou em Genipabu, tanto faz. Mas você nem precisa ir até o deserto para ficar encantado com o apuradíssimo senso estético do povo desta parte do Marrocos (literalmente, pra lá de Marrakech). Eles conseguem reunir o bom-gosto do sul da Europa com uma coragem cromática decididamente africana. Dá vontade de trazer tudo para casa -- felizmente a bagagem já é tanta que não temos outra alternativa senão resistir. De qualquer maneira, Viaje na viagem adverte: não traga ao Marrocos aquele seu filho de 10 anos que não gosta de brincar de autorama -- a não ser que tudo o que você mais queira na vida seja ter um decorador na família. Ouarzazate, 25 de novembro, 1998. |