Se meu laptop escrevesse
Meu Mac Powerbook G3 novinho kaputt em Istambul. O mouse funcionava, mas o teclado estava frígido, insensível, tetraplégico. Achei que em Jerusalém eu ficaria o tempo suficiente para consertar o bichinho. Mas quando cheguei lá, minha primeira impressão era de que ninguém jamais tinha ouvido falar em Macintosh em Israel -- e para entornar ainda mais o caldo, a lista telefônica era em hebraico.
Como o pessoal do hotel não parecia nem um pouquinho interessado em ajudar (em 17 anos de viagens, nunca vi funcionários de hotel -- e olha que o American Colony é um relais-château -- tão antipáticos; nem o sujeito que foi nos apanhar no aeroporto se ofereceu para carregar nossas malas!), resolvi ligar em São Paulo para meu amigo Richard Sidler, que trabalha com fornecedores israelenses de informática, e pedir uma força. O Richard (thanks Richardinho!) me deu o telefone de uma amiga dele, a Fiona Rosenberg, e a Fiona (toda rabah, Fiona!) em menos de 10 minutos deixou um recado no voice mail do hotel com o telefone "do pessoal que conserta Macintosh em Jerusalém".
Liguei lá -- mas quem disse que eu conseguia entender o endereço que a menina da assistência técnica dava? E ela repetia. E repetia. E repetia. Fingi que entendi, fui até a recepção do hotel e pedi (implorei) para eles ligarem naquele telefone e anotarem o endereço em caracteres romanos para mim. 20 minutos depois o bigode de plantão me veio com a seguinte transcrição do endereço: Har Hogttsfim.
Pois bem: o lugar se chamava Har Hodzvim, e graças a Abraão o motorista de táxi sabia onde ficava. Lá chegando, descubro que Har Hodzvim é um complexo de prédios e não tenho a mínima idéia de qual seja o nome da empresa onde vou, para poder descobrir em que prédio ela fica. Peço para ligar do telefone da recepção de um dos prédios, pergunto para a menina da assistência técnica qual o endereço exato e qual o nome da firma; ela fala umas 8 vezes e eu não consigo entender nada.
Desesperado, saio na rua e vejo, na placa do edifício que mais parecia com o que ela tinha falado, o nome de uma empresa que tinha alguma coisa a ver com o que eu tinha ouvido: Emelek. Entro na Emelek, e eles nunca viram um computador Macintosh na vida deles. Quase me ajoelho para pedir à funcionária que me atendeu que telefonasse para a assistência técnica e perguntasse o prédio exato e o NOME da firma onde eu ia. Felizmente, ela ligou. E me disse o nome da firma. O nome da firma, pasme, era -- Apple.
Deixo o Powerbook lá na Apple, digo que vou viajar na sexta (estávamos na terça ainda), e eles dizem que como não trabalham na sexta eu vou ter que passar lá na quinta, tenham eles conseguido consertar ou não.
15 minutos e 10 metades de unhas roídas depois...
Fui lá. Peguei o cadáver do meu laptop. Cheguei no hotel. Resolvi ligar o computador só para ver se pelo menos o mouse ainda estava funcionando. Vou no programa de conexão à Internet, teclo umas coisinhas -- nada. De repente começa a aparecer: kkkkkk. Uau! ELE COMEÇOU A FUNCIONAR! HALLELLUJAH! HALLELLUJAH! LEVANTA-TE E COMPUTA, DESGRAÇADO!!!!
Com o quê, meu laptop agora atende pelo seguinte nome de guerra: Lázaro.
Já consegui consertar os errinhos de programação dos postais de Istambul e da Capadócia. Amanhã cedinho coloco no ar o de Jerusalém.
P.S.: pensa que acabou assim?. Tsk tsk tsk. O bicho quebrou de vez no meio do postal de Jerusalém. Só deu mesmo para consertar -- Dieu merci -- em Paris.
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