Moratória em Bora Bora
No momento em que escrevo (sábado, 16 de janeiro, 20h30), a liberação do câmbio já tem 36 horas de idade.
A essas alturas, todos já nos acostumamos à idéia de que nossas próximas viagens ao exterior estão (por enquanto) 30% mais caras. O difícil é aceitar que a conta da sua viagem do fim do ano passado está neste exato instante se reproduzindo feito lactobacilos ninfomaníacos numa geladeira do American Express.
Quanto vai custar, quando a fatura finalmente chegar, aquela água de coco de 6 dólares (que eu só descobri que custava 6 dólares na hora de conferir a conta do hotel)? E aquele bonezinho de 36 dólares que era o mais baratinho à venda? E aquelas bicicletas alugadas a 15 dólares por meio período? O que já era absurdo acaba de ficar do tamanho do pendura de Minas Gerais.
O que me serve de consolo -- sim, eu sempre vou achar alguma coisa que me sirva de consolo -- é que, com o real enfraquecido, eu vou ser provavelmente o último brasileiro a ter pisado na Polinésia. Quer dizer -- tinha um monte de brasileiros no meu vôo de volta, mas ninguém precisa ficar sabendo.
Vou virar celebridade, dar entrevista nas páginas amarelas da Veja, e, quando a Caras não conseguir mais permutas para mandar globais e top-models tomar sol no Bora Bora Lagoon Resort, vão pedir para fotografar meu bonezinho de 36 dólares (que vão estar valendo tipo assim 1.653.985 reais novos, ou reizeiros, ou reizados, ou qualquer moeda parecida) na minha cela especial do Carandiru (que é para onde a minha fracassada renegociação de dívida externa com o American Express terá me levado).
Alguém aí tem o endereço do Palácio da Liberdade? Eu acho que eu tenho uma continha pra mandar pro Itamar.
São Paulo, 16 de janeiro, 1999
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