Postal por escrito: Marrakech, Marrocos


O que nenhum guia conta é que, do lado de fora da medina (a Marrakech "marroquina"), existe uma Marrakech francesa, de avenidas largas e arborizadas, habitadas por hotéis, prediozinhos e casas cor-de-rosa -- quase tudo estritamente art-déco.

É muito engraçado encontrar essa cidade déco num lugar que vocé esperava ter a mesma cenografia de um baile de carnaval (tema: "Uma noite no Marrocos"). Mas acredite: se em vez desse pessoal de camisolão dirigindo charretes de turistas você visse americanos sem camisa andando de patins in-line, dava para jurar que aqui era algum bairro escondido de Miami Beach.


No entanto, a medina -- o coração murado de toda cidade árabe -- encerra a marroquinidade em estado bruto. Por mais que Marrakech tenha se tornado um artigo para consumo turístico, sua medina continua de verdade -- ou seja, mais para Rocinha do que para Epcot Center.

A praça principal, Jamaâ-el-Jafna, em frente à entrada do souk, é um sambódromo permanente, com trupes de saltimbancos, encantadores de serpentes e barracas vendendo de suco de laranja a sopa de miolos. A praça está sempre cheia, e o público é predominantemente nativo; a turistada assiste tudo do camarote da Brahma, perdão, dos terraços dos cafés em volta do "picadeiro".

Quando você se afasta um pouquinho da praça, desaparecem as lojas de artesanato e você vira, finalmente, voyeur da vida real -- das mercearias, dos açougues; das lojinhas que consertam TVs preto-e-branco tão antigas que parecem ser anteriores à própria invenção da TV, das portas das casas que se abrem e por 3 segundos se mostram para você.

Perder-se nas ruelas labirínticas da medina (e é virtualmente impossível não se perder) é como participar ao vivo de um documentário da BBC. Mas como a maioria dos turistas se hospeda em hotéis hollywoodianos, os dias em Marrakech são comandados por uma espécie de controle remoto: de Hollywood à BBC, e então de volta a Hollywood.


O mais glamouroso dos hotéis de Marrakech é o mitológico La Mamounia, uma construção dos anos 20 numa propriedade palacial pertinho da medina. Seus arquitetos pareciam decididos a fundir o estilo da época -- o art-déo -- com a tradição mourisca, obtendo um resultado que eu definiria como "mourisco-déco -- ou, melhor ainda, mouriscô.

O La Mamounia é divertido, luxuoso, profissional, eficiente, classudo, agradabilíssimo -- mas espíritos mais rústicos certamente vão se sentir mais à vontade em meio à profusão de kilims, almofadas e objetos bérberes de Ouarzazate e Zagora.


Lição no. 1: como se aventurar pelo labirinto da medina -- o jeito errado. Noite. Com o guia aberto na página do mapa da medina de Marrakech, procuramos um restaurante recomendado. Tenho certeza de que estamos na rua certa, mas a rua não tem nenhuma placa -- tampouco as portas têm números. Andamos para um lado; depois vamos na direção contrária. Não achamos nada. Resolvo parar numa esquina para ver se estamos onde penso que estamos. Tudo o que era colorido de dia fica amedrontador no escuro. Um marroquino se aproxima e pergunta o que estamos procurando. Eu falo o nome da rua. "Mas o que vocês estão procurando?" Eu falo o nome do restaurante. "Ah, me sigam, eu conheço um atalho". E ele começa a andar, muito rápido, por ruelas estreitíssimas, secundárias até mesmo às ruelas onde estávamos. Ele vai andando, nós atrás, e tudo vai ficando mais escuro e mais ermo e mais barra-pesada. Até que eu olho para o Nick, o Nick olha para mim -- e damos meia-volta sem dar satisfação nem nunca olhar para trás. Acabamos comendo num restaurante perto da praça, freqüentado por mochileiros escandinavos, com azulejos bonitos, comida boa, mas sem álcool. Os dois Sambucas de saideira no bar do hotel saíram mais caro que o jantar inteiro.


Lição no. 2: como se aventurar pelo labirinto da medina -- o jeito certo. Decididos a não repetir o erro da noite anterior, vamos de tarde ao concierge do hotel. O senhor pode fazer uma reserva no restaurante Yacout? "O Yacout, c'est complet ce soir, Monsieur". E o senhor tem alguma sugestão? "Le Styllia; c'est très bien, Monsieur". Reserva feita pelo concierge, pegamos um "petit-taxi" (petits-taxis são Peugeots, grands-taxis são Mercedes), petit o suficiente para entrar na cidade velha. Lá pelas tantas, paramos e um garoto de camisolão pergunta: "Styllia? Vous avez une réservation?" Descemos, e o garoto de camisolão nos leva por ruelas mais ermas que as da noite anterior -- mas o que era amedrontador ontem vira mágico e misterioroso hoje. Ele nos deixa numa porta absolutamente comum, de onde um outro camisolão nos conduz por um corredor a um salão suntuoso de um palácio do século XV -- onde, em meio a tapetes belíssimos e circundados por mosaicos elaborados, degustamos, à luz de velas e ao som de viola e percussão mouriscas, nossa mais sofisticada refeição de toda a viagem. Pastilla de carne de pombo com açúcar de confeiteiro e canela. Tagine de cordeiro. Couscous de legumes. Pastilla de leite. Chá de menta. Um outro camisolão nos leva pelo labirinto de volta, até o lugar onde nosso petit-taxi continua à nossa espera. Chegando ao hotel, ele pede 50 dirhams pela corrida. Para ele, que está claramente nos roubando, é uma pequena fortuna. Para nós, que estamos conscientemente sendo roubados? são 5 dólares e 50 cents.

Marrakech, 28 de novembro, 1998.