Postal por escrito: Luxor, Egito


Não bastasse terem inventado os hieroglifos, os egípcios também inventaram o logotipo: cada faraó tinha sua marca própria, escrita em relevo dentro uma plaqueta que os arqueólogos franceses batizaram de cartouche. Todas as obras faraônicas de um mesmo faraó eram assinadas pelo seu cartouche -- que só não era iluminado porque ainda faltava tipo uns 4.000 anos para inventarem o néon.

Talvez por isso eu não me choque com o luminoso do McDonald's que dá para ver à noite por entre as colunas do Templo de Luxor. Pensando bem, o "M" arqueado do McDonald's é o hieroglifo mais característico de nossa civilização. Daqui a 5 mil anos, quando arqueólogos desencavarem o equivalente às nossas tumbas de faraós, eles vão encontrar monumentos inteiros repletos de hieroglifos da Nike, da Coca-Cola e da Microsoft, e vão se perguntar qual seria o significado dessas palavras rituais tão freqüentes na nossa religião -- ligue djá.


Para quem não é egiptólogo, os templos de Luxor oferecem uma grande vantagem com relação às pirâmides do Cairo: é tudo novidade. Enquanto as Pirâmides servem basicamente para você ficar pondo defeito, os monumentos de Luxor -- o Karnak, o templo de Ramsés III, as tumbas dos faraós -- podem ser catalogados no departamento das verdadeiras descobertas.

Senão pelo conteúdo, pelo menos pelo tamanho. É tudo tão acachapantemente grande que você não tem como não se sentir tão insignificante quanto os faraós queriam que você se sentisse.

E o melhor de tudo: não dá para fotografar. Quer dizer, dá, mas você nunca vai conseguir captar a escala. Sem noção clara de proporção, as fotos correm o risco de parecerem tiradas de maquetes feitas com Playmobil do seu tio-avô. Para compreender a grandiosidade dos templos de Luxor, só mesmo vindo pessoalmente e se sentindo um protozoário ao pé de uma de suas colunas.


Aliá, um postal por escrito é muito pouco para passar o que é o Karnak.

A única maneira de expressar com fidelidade o que acontece com você entrando no Karnak talvez seja montar uma banda com mais ou menos 15 integrantes e fazer um som monumental. O que seria uma boa idéia, se o André Abujamra já não tivesse feito isso antes.

Luxor, 19 de novembro, 1998.