Postal por escrito: Jerusalém, IsraelÉ o sonho de todo correspondente de guerra: estar em Israel, prestes a viajar para a Jordânia, bem na hora em que os Estados Unidos ameaçam bombardear o Iraque. Só tem um detalhe: eu não sou um correspondente de guerra -- eu sou um turista. Turista profissional, mas turista. Se pelo menos este site fosse patrocinado, eu ainda veria alguma graça em correr o risco de me encontrar com Alá. Mas até onde eu sei, eu estou pagando para perigar virar alvo das armas químicas de Saddam Hussein. Tento me acalmar pensando em todas as situações potencialmente mais perigosas por que já passei. O dia em que eu fui ver Corinthians x Inter no Pacaembu, por exemplo, e entrei sem querer na torcida do Corinthians -- o Inter ganhou por 3 a 0 e eu não podia mexer um músculo para demonstrar minha alegria senão era massacrado. Ou os motoristas que já peguei na Índia e no Vietnã, em viagens de cinco, seis, oito horas em que a única coisa que eles mostravam saber manejar bem era a buzina. Quer dizer: pensando bem, eu mesmo, dirigindo meu carro, a qualquer hora, em qualquer lugar, talvez ofereça mais perigo do que estar em Israel, partindo para a Jordânia, em meio à Guerra do Golfo II, o Eterno Retorno. Descoberta Fundamental No. 1: falafel é na verdade um acarajé judeu! (Preciso contar isso para a Carla Pernambuco.) Suderj informa: sai a farinha de feijão, entra massa de grão-de-bico. Sai o dendê, entra o azeite de oliva. No lugar do vatapá vem homus; em vez de camarãozinho, servem salada; e para eliminar suas chances de continuar cabendo nas suas roupas até o final da viagem, você ainda tem que botar tudo dentro de um pão árabe -- que aqui é chamado de "pão pita", e que na verdade nós sabemos muito bem que deveria se chamar pão maluf. Descoberta Fundamental No. 2: Só os lugares sagrados das religiões dos outros é que têm graça. Para mim, conhecer os lugares recomendados pelos evangelistas (que foram uma espécie de escritores de guias turísticos em seu tempo) não arrepiou sequer um pelinho do braço. Aqui é que Jesus está enterrado? Anrã. A via crúcis foi por aqui? Ah, tá. Jesus caiu pela segunda vez ali? Ali naquela esquininha onde está aquela guia gritando para 35 franceses? Tá bom. Pode não ser emocionante, mas não deixa de ser engraçado: tem de ceguinho carregando cruz, grupos que cantam hinos a cada estação da via dolorosa, grupos de turistas filipinos (onde mais você poderia ver este fenômeno da natureza, turistas filipinos?), seminaristas ortodoxos gregos, fora todos os outros que eu não fiquei parado esperando aparecer. Mas juro que as missas de Sexta-Feira Santa da minha infância eram muito mais interessantes (pelo menos não tinha ninguém vendendo souvenir em volta). Atenção para a maldição dos céus: foi só eu escrever as blasfêmias aí de cima que o meu computador pifou de novo (a novela inteira está publicada sob o nome Plobremas ténicos). A partir de agora estou de volta ao Strudel, o cybercafé aqui da rua Mombaz, e quem está colocando a página no ar é a Ester Krivkin -- obrigado Ester! Em compensação, adorei ver todas as coisas que teoricamente não significam nada para mim -- o Domo da Pedra (monumento muçulmano construído no lugar dos dois antigos Templos sagrados dos judeus), com suas pastilhas azul-celeste e sua cúpula banhada a ouro, é um convite para você começar a pensar em ir a Bagdá (vade retro Saddam!) ou ao Uzbequistão (não é piada: o Uzbequistão está super " in".) E passar pelas ruas dos bairros habitados pelos judeus ortodoxos é uma diversão -- você fica imaginando como seria se a seita à qual você pertence também tivesse congelado o seu jeito de vestir em alguma moda particularmente infeliz. Por exemplo: vai que a Era de Aquário tivesse se tornado a religião hegemônica entre nós e a gente fosse condenado a usar as roupas do início dos anos 70 por séculos e séculos? (Pensando bem, isso aconteceu, e os seguidores brasileiros mais conhecidos são Marisa Monte & banda.) Infelizmente, comi muito -- e maravilhosamente bem. Concordo com o editor da Vip, o idem Marco Antonio Rezende, que me recomendou o Abu Shukri na Cidade Velha pelo melhor homus do mundo, o que além de ser uma verdade é uma pechincha. O Frommer's me levou ao Eucaliptus, um restaurante simples porém inesquecível, que acabou de se mudar para a rua Jaffa no complexo da Prefeitura nova. Pedimos a seleção de entradas (meza), que valia por um catálogo vivo sobre como usar ervas frescas com legumes. Absolutamente divino. Depois, eu pedi figos recheados com frango ao molho de tamarindo (se for hora do almoço aí, desculpe) e o Nick estraçalhou um arroz de frango com açafrão. Em Tel-Aviv, junto à lindinha cidadela restaurada de Jaffa, experimentamos o charmosíssimo Yoezer Wine Bar (confit de ganso, fígado de vitela, antipastos ótimos). Os cafés da manhã do American Colony, o hotel onde ficamos (o mais charmoso de Jerusalém, indicação do Marco Antonio Rezende e também da Barbara Gancia, grazie mille) são dignos do pachá que morava lá antes de virar hotel: frutas locais hiper-exóticas (por que no Nordeste não servem frutas locais nos hotéis???) e um pão doce feito na hora que acaba com qualquer possibilidade de regime. E ainda falta ir ao Gilly's, indicação da Guida, que será alvo de conferência assim que eu sair deste computador. Mas talvez o mais bacana tenha sido ir à Armenian Tavern, o restaurante que eu peguei ao acaso na edição brasileira do Frommer's para ilustrar o poder dos guias e da Internet (leia os capítulos "Guia dos guias" e "O viajante virtual"). O clima é exatamente o descrito no guia, mas a foto da Internet não faz justiça ao restaurante, que é muito mais bonitinho do que mostra a página deles. O fato de ser "o mais bonito restaurante da Cidade Velha de Jerusalém", agora eu sei, não quer dizer nada, porque quase tudo na Cidade Velha (com exceção do bairro judeu) é completamente esculhambado. Mas a Armenian Tavern é de qualquer maneira muito charmosa. Como eu sou curioso, pedi o "o prato-seleção", que vinha com um pouquinho de cada especialidade. Que são: E pode parar de rir, porque eu adorei. Jerusalém, 13 de novembro, 1998. |