Postal por escrito: Istambul, Turquia
Admito: é o cúmulo do excesso da overdose da frescura, mas
depois de 11 horas de viagem, mais 4 horas mofando e
criando musgo no aeroporto (de Frankfurt, tudo bem, mas não deixa
de ser um aeroporto), mais 3 horas como prisioneiro no ar da
Turkish Airlines, nada pode ser mais reconfortante do que ver um sujeito
de terno e gravata (loiro e alto também, mas não vem ao
caso) segurando uma plaquinha com o seu nome no desembarque
internacional do aeroporto de Istambul.
E tudo fica ainda mais das mil-e-uma-noites quando, mal o BMW arranca,
ele te passa uma pasta com uma folha para assinar -- dispensando
você de qualquer outra formalidade de check-in. É como eu
digo: o Paraíso no céu, e o Four Seasons na terra.
O Four Seasons fica numa antiga prisão (PC-Farias-mente
restaurada) no coração de Sultanahmet, que
é o lado mais explicitamente Aladim da cidade. Você
põe o pé para fora do hotel e tropeça na
Mesquita Azul. Levanta e logo bate com a cabeça na igreja
de Santa Sofia (que significa "Divina Sabedoria", e não o
nome de uma santa; tanto que manteve o mesmo nome ao ser convertida em
mesquita pelos otomanos).
Você sai da igreja e não tem como não entrar no
Topkapi, o palácio com o harém mais visitado do
mundo (parênteses: senti falta das meninas. Por que
não contratam umas trezentas figurantes para fazer o papel de
concubinas? Eles até iam poder cobrar mais caro o ingresso.)
Então você se perde um pouquinho e quando se dá
conta está dentro do Grande Bazar, que é tipo assim
o Iguatemi de todos os souks. (Não, não tentei
comprar nada -- por isso não tenho nenhuma palavra a acrescentar
a minhas breves recomendações sobre como pechinchar no
Oriente -- leia o capítulo "A pátria de sacolas".)
O melhor de tudo é que, para desfrutar de todos os
privilégios da localização do Four Seasons,
você não precisa dizer "abre-te sésamo" para
a sua conta bancária. É só você
não se hospedar no Four Seasons. A meia quadra dali,
existem pelo menos 4 hostels de mochileiros, e por todo
Sultanahmet os hotéis baratos dão mais que chuchu na serra
(que queijo de cabra na montanha? que pepino em salada grega? que
beirute no Almanara?). Você não vai poder fazer check-in no
carro, é verdade, mas em compensação não
corre o risco de ter todos os seus bens penhorados na volta, como
é o meu caso.
Toda vez que eu venho a um país muçulmano me pergunto como
pode uma sociedade tão machista ser tão religiosa. Na
nossa cultura, religiosidade é para os fracos -- ou para
matriarcas dominadoras. Ser carola simplesmente não combina com
progresso pessoal -- a não ser na cultura judaica, onde isso vem
revestido de afirmação social. Anoto as bases para minha
tese de mestrado em Ciências Peripatéticas: Da
Influência da Religiosidade Masculina no Atraso Cultural e
Tecnológico das Sociedades.
Tive que atrasar minha partida do Brasil em um dia, e por isso fiquei em
Istambul pouco tempo demais -- até para os meus padrões.
Com isso, adiei a realização de um dos meus maiores
sonhos: ir de táxi para a Ásia. Não que
exista qualquer coisa a ser vista no lado asiático de Istambul,
mas deve ser maravilhoso você chamar um táxi no meio da
rua, entrar como quem não quer nada e dizer:
Mas ainda falta aquele verão entre o Egeu e o
Mediterrâneo turcos. Taxistas de Istambul: me aguardem.
Istambul, 7 de novembro, 1998. |