Quanto você paga para não ficar num hotel cheio de brasileiros em Nova York?
Sim, esta é uma matéria elitista. Sim, esta é uma matéria politicamente incorreta. Mas quem viajou ao exterior e nunca se sentiu incomodado com a presença de compatriotas ao seu redor, que atire a primeira bagagem de mão. Quem nunca baixou o tom de voz ao ouvir alguém falando português, pode virar a página. Quem nunca fingiu ser sueco, saudita ou zulu ao passar por um grupo carregando bolsas brancas com o logotipo de agências de turismo brazucas, que se candidate a vereador nas próximas eleições.
Estamos agindo certo? Claro que não: nossos grupos de turistas não são melhores nem piores do que grupos de turistas de nenhuma outra nacionalidade, sejam eles japoneses, alemães ou americanos. Vamos mudar? Dificilmente -- pelo menos enquanto "o povo brasileiro" for uma figura de retórica sempre usada para descrever os "outros" brasileiros, e nunca "nós".
Somos assim por vários motivos. Porque sofremos de complexo de inferioridade nacional, e sentimos vergonha alheia (antes mesmo que alguém faça alguma coisa que possa nos envergonhar) . Porque viajar, até há pouco, era um símbolo de status, um privilégio de meia-dúzia de abonados, e a democratização do turismo incomoda. E porque, ora bolas, conviver com brasileiros de manhã, à tarde e à noite realmente corta o barato de quem quer se sentir verdadeiramente no "estrangeiro".
O elitismo e a incorreção política, evidentemente, têm seu preço. A questão é: caro ou barato? Disposto a calcular quanto custa prescindir da companhia ostensiva de patrícios em Manhattan, resolvi (como sempre) pesquisar in loco. O que eu queria descobrir: qual o nível de conforto oferecido pelos hotéis dos pacotes? /B>Quais as alternativas avulsas na mesma faixa de preço, em hotéis não freqüentados por grupos de brasileiros? E quanto a mais é preciso investir para ficar em hotéis decididamente memoráveis?
Fiz assim. Primeiro, consegui uma passagem Varig bem em conta (712 dólares) na Aviotur, com meu super-agente Rubens Bittencourt (0-xx-11-853-6755) . Em seguida, reservei um hotel diferente para cada uma das cinco noites que passaria em Nova York (o Rubens já está acostumado a ter cinco vezes mais trabalho comigo do que com passageiros, digamos assim, normais). Antes de partir, me informei em duas das principais operadoras de pacotes para Nova York -- Soletur e CVC -- sobre os hotéis oferecidos e os preços (vigentes na semana de 24 a 29 de maio). E chegando em Manhattan, passei boa parte dos meus cinco dias subindo e descendo de quartos de quase 30 hotéis. Finalmente, fechei a lista em 24 hotéis (os sete oferecidos pelos pacotes das agências, mais 17 alternativas que eu indico). E então calculei a diferença entre:
a) comprar um pacote de 7 noites (em quarto duplo), com passagem incluída; e
b) arranjar uma passagem de 712 dólares e pagar 7 noites de hotel fora de pacote (dividindo o quarto com alguém).
Comparei as alternativas baratas ao pacote simples mais vantajoso (o do Days Hotel). E calculei o investimento para ficar num hotel melhor usando como referência o preço do melhor pacote de luxo (o do Roosevelt Hotel).
Nas páginas seguintes você vai ver tudo detalhadinho hotel por hotel. Aqui vão as conclusões gerais:
*Os hotéis dos pacotes vão do muito decente ao muito bom.
Eu já sabia que os preços dos pacotes seriam imbatíveis, mas imaginava que os hotéis fossem meio deprês. Pelo contrário: com exceção de um (o Pennsylvania, oferecido pela CVC), todos os hotéis são confortáveis e foram recentemente reformados. Dos sete, quatro são simples, três são luxuosos, mas nenhum pode ser caracterizado como "hotel de brasileiro": são hotéis que hospedam grupos, entre eles grupos de brasileiros. Se você não comprar os passeios extras (Harlem, Washington, Atlantic City... Atlantic City???), que fazem você continuar andando em bando, e der um jeito de sumir com aquela bolsa branca com o logotipo da agência de turismo, você não vai se sentir tão tupiniquim.
*As alternativas baratas têm mais charme e melhor localização, mas oferecem menos conforto.
Na mesma faixa de preço dos pacotes você só consegue se hospedar em hotéis com quartos minúsculos (quando os quartos são grandes, são malconservados), com móveis e apetrechos velhinhos e visitas não muito minuciosas da camareira. Se você gosta de se hospedar em pensões e hoteizinhos fuleiros na Europa (eu, por exemplo, adoro), vai preferir estes hotéis aos dos pacotes. Mas se você não é ninguém sem um lobby grande e uma máquina de gelo no seu andar, então empacote-se.
*A partir de 150 dólares a mais por pessoa, você pode se hospedar num hotel realmente bacana.
Quer dizer, com esta diferença você pode ficar no Paramount, o mais barato dos hotéis transadinhos de Manhattan. Para se hospedar em alguns dos outros hotéis da moda, você vai ter que investir entre 440 e 722 dólares a mais por pessoa (ou entre 63 e 103 dólares por dia, para ver se soa mais barato). De qualquer forma, é bem menos do que você pagaria por um upgrade para a classe executiva -- e em vez de se sentir chique por duas noites no avião, você e sua cara metade (põe cara nisso) vão se sentir "mudernos" por uma semana inteira em terras nova-iorquinas. E não se preocupe com a possibilidade de encontrar brasileiros no elevador: eles vão fazer de tudo para que vocês não percebam que eles também são.
Os pacotes simples e suas alternativas.
Os pacotes de luxo e suas alternativas.