Como você diz que pagar com cartão de crédito é melhor, se o governo taxa os gastos internacionais em 2%?
A ponderação, extremamente pertinente, vem da Cristina, de Vila Velha, no Espírito Santo, que concorda que o cartão de crédito é mais prático, mas está pensando em comprar travelers cheques em euro para sua viagem à Europa em maio.
De uma certa maneira, você me pegou -- quando escrevi o livro, não pensei na tal taxa de 2% (nem me lembro se já existia naquela época). Mas mesmo levando a taxa em consideração, posso te dizer que, em tempos de paz cambial (ou seja: não em meio à turbulência monetária que estamos atravessando neste início de 1999), o cartão de crédito é mais vantajoso que o travelers cheque -- pelo menos fora dos Estados Unidos.
Por um motivo muito simples: como os cartões de crédito são grandes atacadistas de dinheiro, a taxa de câmbio que eles conseguem na conversão da moeda local para o dólar (que é a moeda do extrato internacional dos cartões brasileiros) é muito mais favorável do que a taxa que os cambistas oferecem para os nossos câmbios-formiguinha do dia-a-dia. Eu já cansei de encontrar, nos meus extratos internacionais de cartão, cotações até 10% mais favoráveis do que as que eu consegui na rua.
Nas grandes cidades européias você encontra um "bureau de change" do lado do outro, muitos oferecendo taxas ilusórias (eles usam a taxa para quem troca mais de US$ 500 como chamariz, e te aplicam outra completamente diferente para você que está trocando US$ 50) ou cobrando comissões que anulam seus ganhos com uma taxa aparentemente mais favorável. Se você levar isso a sério, pode entrar na maior neura cambial e deixar de ver coisas interessantes para ficar batendo perna em busca da melhor taxa.
Mesmo quando você retira dinheiro vivo em caixa eletrônico (ATM, em inglês; distributeur de billets, em francês) você acaba pagando uma tarifa (de US$ 1 a US$ 2,50) que, se bobear, pode ser maior do que a taxa de 2% incidente sobre os gastos em cartão. Ou seja: nunca retire menos do que o equivalente a US$ 200 em caixas automáticos.
Ainda não falei com ninguém que tenha ido à Europa com travelers cheques em euro, para poder perguntar se as taxas de câmbio entre o euro e as moedas locais são mesmo fixas até nos bureaux de change da rua. Caso eles pratiquem as taxas oficiais dos bancos centrais, e você encontre um cambista que cobre uma comissão menor do que 2% do que você está trocando, então o travelers cheque fica indiscutivelmente mais vantajoso que o cartão. (Vou xeretar por aí e assim que tiver notícias quentes eu volto aqui.)
De qualquer modo, estamos em tempos de guerra cambial, e por isso os travelers cheques podem ser um ótimo seguro contra futuras desvalorizações do real. Se em vez de usar cartão eu tivesse levado travelers à Polinésia, não estaria perigando declarar moratória neste momento.
Mas mesmo quem optar pela alternativa cartão deve, sim, levar o equivalente a 1/3 do orçamento em travelers, para os gastos menores que só podem ser feitos em dinheiro vivo. É muito mais seguro que dinheiro e não depende da tarja magnética do seu cartão de banco estar funcionando perfeitamente.
E antes de sair, não se esqueça de conferir os limites dos seus cartões, para não passar vergonha nem necessidade. Se ainda dá tempo, procure trocar seus cartões que não dão vantagem nenhuma por cartões que deêm milhagem pelos seus gastos.
Para mais dicas de como aproveitar melhor suas viagens, leia Viaje na Viagem: dê um pulinho já na Siciliano Virtual.
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