Postal por escrito: Dublin, Irlanda


Agora eu sei porque as passagens aéreas andam tão caras. No vôo entre São Paulo e Londres a Varig passou um vídeo de mais ou menos 15 minutos sobre a Inglaterra. Agora veja bem: 15 minutos delirantemente en-so-la-ra-dos sobre a Inglaterra.

Convenhamos -- 15 minutos consecutivos de sol sobre a Inglaterra são mais raros que eclipses totais da Lua. Para conseguir filmar 15 minutos de sol sobre a Inglaterra, a Varig deve ter deixado uma equipe inteira de tocaia por anos a fio. Ou pior: dezenas de equipes de plantão simultaneamente, que ao menor sinal de sol saíam correndo em busca do monumento mais próximo.

Deve ser um vídeo tão caro, mas tão caro, que só deveria ser mostrado na Primeira Classe; afinal, só quem viaja de Primeira Classe tem dinheiro para comprar um dia de sol na Inglaterra. Enfim, o que me incomoda é que o MEU DINHEIRO está pagando por esta superprodução. 15 minutos de sol sobre a Inglaterra! Será que não ficava mais barato fazer tudo em computação gráfica???


Dublin é uma cidade feia, cheia de pubs bonitos. O oposto absoluto de Paris, que é uma cidade linda, cheia de cafés feios. Os cafés de Paris não se preocupam com a decoração porque o que importa é ter mesas do lado de fora; qualquer café parisiense com mesas na calçada oferece vistas para Paris. Mas Dublin é uma cidade feia, e talvez por isso seus pubs sejam tão bonitos -- e alegres, e engraçados, e que por si só valem, sim, a viagem. Mas não, não é uma cidade bonita.

O rio que corta Dublin, o Liffey, e que pode ser atravessado em diversas pontes -- a mais pitoresca é a Ha'penny Bridge, que treme sutilmente sob os pés da gente -- é um rio que fica assim a meio caminho entre o Sena e o Capibaribe.

Quer dizer: Recife é mais bonita. Mas em compensação não tem nenhum pub irlandês decente.

Dublin, 11 de setembro, 1998