Postal por escrito: Cracóvia, Polônia
Sou de Porto Alegre -- e de repente
me passa pela cabeça que a Cracóvia é a Porto Alegre
de João Paulo II. Se o papa for gente como a gente, deve ser aqui
que ele passa seus feriadões (quando o departamento pessoal do Banco
do Vaticano deixa ele emendar).
Fico imaginando o bom e velho J.P. -- ou Karol, se
você insiste -- chegando incógnito (batinazinha preta
básica; nada de roxos nem de brocados), sentando num café
da praça Rynek, pedindo sua vodca Zubrowka e vendo a turistada
passar pela frente da igreja de Santa Maria.
Não, não: ele deve ir direto para a
igreja, pedir um vinho de sacristia (parece que eles só servem
em taça) e uma porção de hóstias para
acompanhar. Ah. Não existe turista mais feliz do que o filho que
à casa torna.
A igreja de Santa Maria é o lugar de onde
o bispo Karol Wojtyla comandava a resistência católica ao
regime comunista, em sermões que eram amplificados por alto-falantes
para a multidão que se aglomerava na praça medieval do lado
de fora da igreja -- sermões tão inspirados que lhe valeram
uma promoção e uma transferência para
Roma.
Por dentro, a igreja é uma das mais interessantes
onde eu já entrei: as paredes e a abóbada são pintadas
em cores fortes, azulão, vinho, amarelo-queimado, estrelas douradas.
No dia que privatizarem a catedral da Cracóvia, ela pode
virar uma ótima filial da Limelight.
A cidade é como os guias falam -- totalmente
preservada, tendo passado incólume pelas guerras e pelo stalinismo.
O que os guias não falam é que um bom banho de loja não
faria mal.
As fachadas dos edifícios -- sempre lindas,
sejam elas barrocas, rococós ou renascentistas -- têm
uma coloração entre o ocre e o marrom acinzentado que em
Roma parece ser de propósito, mas que aqui parece ser sujeira mesmo.
Depois de três dias na parte oriental de Berlim,
eu diria que uma boa solução para a recuperação
arquitetônica da Polônia seria uma unificação
com a Alemanha. Aliás, eu acho que o mundo todo podia parar
de ser tão orgulhoso e pedir para se unificar com a Alemanha.
O catalão é a mistura entre o português,
o espanhol e o italiano. O holandês é a mistura entre o alemão
e o inglês. Já o polonês é a mistura entre
qualquer idioma e a vodca.
Para falar polonês perfeitamente, basta você
tomar três vodcas a mais do que a sua capacidade e falar
a sua própria língua, com o cuidado de omitir as vogais
(o que é quase natural quando você toma três vodcas
a mais do que a sua capacidade). Prnt. Vc st flnd plns prftmnt. Hic!
Se bem que, quando cantam, os poloneses parecem fazer
uso de vogais, sim. Eu pensava que em vez de "sha-la-la, sha-la-la, sha-la-la"
eles fariam coro cantando "zbrvsk, zbrvsk, zbrvsk", mas me enganei. Eu
sei disso porque aqui na praça central da Cracóvia Velha
-- a praça Rynek-- bem embaixo do relógio medieval
em obras (com um outdoor gigantesco do Nescafé tapando a tela de
proteção), existe um palco montado pela Telecomunicacja
Polska com um karaokê aberto ao publico.
Então você está ali tomando sua
vodca Zubrowka e olhando para a igreja de Santa Maria, e aquela
polonesada fica assassinando a música pop polonesa para todo mundo
ouvir. Tudo bem que a música pop polonesa mereça ser assassinada,
mas e os turistas? Vou te dizer: se eu fosse um turista que tivesse viajado
oito horas de trem para chegar ali e ainda fosse viajar nove horas de
trem para sair dali, e tivesse que agüentar um povo desafinando a
todo volume no lugar mais bonito da cidade, juro que eu não sei
o que eu faria.
Aliás, já sei o que eu faria.
Eu pediria a conta e iria até o cybercafé mais próximo
escrever sobre isso.
Cracóvia, 19 de setembro,
1998
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