Paris: Cinelândia
Qual a primeira coisa que passa pela sua cabeça quando você escuta a palavra "Paris"? Eu adoraria poder pensar "Torre Eiffel", "pirâmide do Louvre" ou "baguette debaixo do braço". Mas não. É só eu ouvir falar a palavra "Paris", que eu penso -- "oba, cinema!!!".
A gente esquece, mas foram os franceses que inventaram o cinema. Hoje em dia eles podem não ter os melhores cineastas, mas certamente têm os melhores espectadores. Graças a eles, Paris tem sempre mais filmes em cartaz do que qualquer outra cidade do mundo. Por trás dessa fachada falsa de Opéras, Notre Dames e Quais d'Orsays, a verdade é que Paris não passa de um imenso Espaço Unibanco. Pronto, falei.
É tanto filme que você perdeu, tanto filme que ainda não passou no Brasil, tanto filme que você nunca ouviu falar, que se bobear você não vê a luz do dia, deixando de lado as atividades mais essenciais do cotidiano, como por exemplo fazer as refeições, escovar os dentes e atualizar seu Website.
Para aproveitar esta Mostra permanente, tudo o que você precisa é de: 1) um Pariscope; e 2) uma semana em Paris. O Pariscope é de onde a Folha de S. Paulo copiou o "Guia da Folha". Sai todas as quartas-feiras, custa 3 francos (mais ou menos R$ 0,70) e, detalhe importante, não vem com a Folha junto. Uma semana em Paris é o tempo que você precisa para programar tudo o que quer ver, já que muitas das melhores reprises passam em pequenos cinemas de arte em apenas uma sessão por semana, tipo terça às 11h30 da manhã ou sexta às 10 da noite.
Então é deitar e rolar -- ou melhor, sentar e recostar a cabeça. Você pode montar seu cardápio misturando grandes produções americanas com obscuros filmes de festival, quem sabe até arriscando um desses filmes franceses que fazem o maior sucesso aqui mas que não passam em nenhum outro lugar. Mas o mais engraçado é ver filmes que em qualquer canto do mundo seriam filmes "difíceis" ou "de arte" serem lançados em grande circuito, em pé de igualdade com os medalhões de Hollywood. "Central do Brasil", por exemplo, foi lançado semana passada em 14 cinemas -- São Paulo tem três vezes mais habitantes que Paris, e eu não me lembro de "Central do Brasil" ter passado em 14 salas ao mesmo tempo.
Mas mesmo sem Pariscope, e mesmo sem uma semana em Paris, é possível tirar sua casquinha da cinefilia dos parisienses. Basta você se dirigir a qualquer uma das "cinelândias" de Paris (não é oficial, eu é que chamo assim). Nos Champs-Elysées (metrô: Franklin-Roosevelt), em St.-Germain (metrô: Odéon), em Les Halles (metrô: Châtelet-Les Halles) e em Montparnasse (metrô: Monpartnasse-Bienvenüe) você pode escolher entre no mínimo 30 filmes num raio de no máximo 300 metros. E se faltar ainda uma hora para a sua sessão, sempre tem um café charmoso com uma mesa estratégica esperando por você.
St.-Germain (e o vizinho Quartier Latin) é o antro dos cineminhas de arte que passam um filme diferente por sessão. Montparnasse (principalmente os cinemas mais perto da estação) é o pólo dos filmes dublados (atenção para a pegadinha: nunca entre num filme "v.f.", versão francesa). Até quem só vai a cinema em shopping vai achar sua praia em Paris: a cadeia UGC tem uma "ciné-cité" de 15 salas no shopping Les Halles, e dia 9 de dezembro inaugura um shopping só de cinemas, a Ciné-Cité UGC/Bercy, com 18 salas, servida pela moderníssima, e recém-inaugurada, linha 14 do metrô.
Eu sei o que você está pensando: mas para que viajar a Paris para ir ao cinema, quando você tem uma locadora do lado da sua casa? Eu respondo por mim: o caminho da minha casa até a Blockbuster não comporta nenhuma espécie de comparação com meu trajeto da île Saint-Louis até o boulevard Saint-Germain.
Paris, 7 de dezembro, 1998. |