Postal por escrito: Casablanca, MarrocosSe eu ainda tivesse dúvidas de que a ordem das escalas altera o produto final de uma viagem, agora não teria mais. Casablanca é tudo aquilo que eu já esperava -- suficientemente normal e sem-graça para só justificar uma parada em casos extremos, tipo o intervalo entre dois vôos. Como chegamos do Cairo de manhã cedo, e o único vôo para Ouarzazate só sai à noite, teríamos 14 horas de turismo forçado em Casablanca. Confesso: nunca pensei que fosse gostar tanto. É a tal ordem das escalas. Quem chega a Casablanca vindo direto de casa ou da Europa vai achar tudo tão pouco exótico que é capaz de pedir seus dirhams de volta. Mas para quem chega do Egito, como nós, Casablanca é um oásis de eficiência, limpeza e educação. O aeroporto não tinha guarda-volumes, mas a moça das informações tinha uma informação para dar: guarde em qualquer uma das "gares" de Casablanca. Você pega o trem no subsolo do aeroporto, o sujeito que se oferece para subir suas malas no vagão se contenta com uma gorjeta de US$ 0,10, o guarda-volumes da estação Casa-Port funciona, o assédio na saída da estação é praticamente inexistente, as ruas são limpinhas, os prédios são art-déco, e o moço da téléboutique da praça Mohammed V informa direitinho onde é o cybercafé (que, por sinal, não está listado no www.cybercaptive.com). No final, deu e sobrou tempo para passear pelo Centro, entrar no souk, bater perna na Corniche (a avenida beira-mar, já no bairro residencial chique), conhecer a linda mesquita nova (uma raridade na arquitetura árabe: alguma coisa ao mesmo tempo "linda" e "nova"), e tomar umas biritas no Ricky's Bar do Hyatt, totalmente cenografado para parecer contemporâneo de Bogart e Ingrid, com mobiliário inglês e posters de "Casablanca" nas paredes. Quer dizer: em qualquer outra circunstância eu seria bem mais ácido e diria que o Ricky's Bar do Hyatt não passa de um Planet Casablanca ou de um Hard Play-it-again Café. Mas não vou mentir. Eu ajeitei minha cadeira de modo a ficar de costas para as TVs sintonizadas na ESPN, pedi meu Bloody Mary -- e tratei de adorar. Casablanca, 22 de novembro, 1998. |