Sexta-feira: São Paulo - Recife
Amanheço no aeroporto, pronto para iniciar minha excursão pinga-pinga ao país do carnaval. Abro os jornais e levo um choque -- Rafael Greca teve a mesma idéia que eu! O portentoso ministro do Turismo faria concorrência a Momo nos três carnavais aonde eu ia, e em mais um: Florianópolis. Mas as semelhanças acabavam aí. Enquanto a folia itinerante do ministro se resumiria a um entra-e-sai de jatinhos, carros oficiais e palanques chapa-branca, meu carnaval peripatético tinha se tornado uma operação de guerra, envolvendo amigos, colegas de trabalho, a iniciativa privada e o submundo da contravenção em três Estados diferentes.
No Recife, dona Elenita, mãe de meu amigo Paulo André, já deveria estar às voltas com o sururu e a dobradinha que restaurariam minhas forças no dia seguinte, na volta do Galo da Madrugada. No Rio, um motoboy iria até a Tijuca apanhar a fantasia do Salgueiro que eu comprei pela Internet e que deveria ser deixada em Botafogo, nos escritórios da Conspiração Filmes -- onde ela ficaria esperando por mim até uma reunião de trabalho providencialmente marcada para o domingo de carnaval. Em Salvador, se tudo estivesse nos conformes, Reginaldo, o cambista de mortalhas que uma amiga baiana me arranjou na última hora, viajaria até Itapoã e entregaria meu abadá do bloco Beijo nas mãos de Beth Nunes, gerente do Sofitel (que tinha se comprometido por fax a guardar a muamba a sete chaves até a minha chegada, na segunda-feira). Ainda na Bahia, uma colega tentava agitar um convite para o camarote de Daniela Mercury, enquanto outro amigo batalhava para que eu desfilasse em cima do trio da Banda Eva, no dia da despedida de Ivete Sangalo. De garantido, na verdade, só mesmo o ingresso para a mesa de pista do Sambódromo, também comprado pela Internet, e que tinha chegado dois dias antes por Sedex.
Eu sei como você se sente: eu também estava exausto só de pensar.
Eram 11 da manhã em São Paulo (10h no Recife) quando pedi minha primeira cerveja de carnaval à aeromoça da TAM. O carrinho ainda estava arrumado com as térmicas e os sucos do café da manhã, e outra comissária precisou ser destacada para ir lá dentro catar uma latinha. Constrangido, tive vontade de explicar que no dia seguinte, a essa hora, eu já estaria frevando no Galo, e por isso precisava adiantar o fuso horário do meu organismo para a metabolização de fermentados -- mas se nem você, que está acompanhando os propósitos estritamente científicos desta empreitada, acreditou nisso, imagine ela.
Cheguei ao Recife (pronuncia-se Ricífi) a tempo de uma caminhada na areia fofa da praia, preparando as pernas para a maratona dos próximos dias. Nas barracas perto dos hotéis, aqui e ali, alemães avulsos, totalmente alheios ao carnaval, tomavam sol ao lado de garotas praticantes de uma modalidade extremamente íntima de turismo receptivo -- que, para felicidade dos dois lados do balcão, não envolve a consumação de um único diálogo completo por semanas a fio. Alguém aí falou em paraíso?
À noite, peguei por acaso um Taxista de Cristo que me levou, com o rádio devidamente sintonizado numa AM evangélica, ao pré-carnavalesco de Boa Viagem. Ganhei uma filipeta de ensinamentos bíblicos ao desembarcar, e talvez por isso tenha alcançado a Iluminação duas quadras adiante, ao ler, numa plaquinha vermelha de madeira, uma inscrição de extraordinário conteúdo metafísico -- CERVEJA: 3 É 2.
(Próxima parada: Galo da Madrugada.)
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