Segunda & terça: Salvador


Bem-vindo ao Woodstock do Faustão.

Enquanto o Recife freva e o Rio desfila, Salvador (pronuncia-se Salvadô se interna numa espécie de festival de rock, em que o rock se chama axé music. Durante quatro dias, todas, absolutamente todas as caras e bundas famosas da música pop baiana vão se apresentar para as massas, cantando em cima de caminhões. Salvador é a nossa Motown -- uma Detroit que, em vez de fabricar música black e carros, produz música afro e trios elétricos.

Comece esquecendo tudo o que você aprendeu em velhos LPs do Caetano. Hoje em dia, atrás do trio elétrico só não vai quem não comprou seu abadá -- um uniforme que custa entre R$ 300 e R$ 700, e dá direito a furar o cordão de isolamento de um determinado bloco. Quem não tem dinheiro vai de "pipoca": fica plantado na calçada e assiste a um pedacinho do show de cada artista que passa. Não deixa de ser uma modalidade de distribuição de renda: você dá uma grana para a sua banda favorita, e ela se apresenta de graça para todo mundo com preparo físico para passar o dia inteiro imprensado na multidão. Finalmente, um ou dois andares acima da pipoca, em sacadas de apartamentos e camarotes temporários, ficam todos os que preferem assistir a tudo sem temer pelo destino de seus relógios.

Cheguei ao hotel sem ter dormido nada nas últimas 30 horas (acho que exagerei no guaraná em pó). Vesti o abadá -- sim, ele estava lá, me esperando no hotel -- e me mandei para o Campo Grande, onde o meu bloco, o Beijo, já devia estar se armando.

Salvador tem dois circuitos de desfiles. No centro, entre o Campo Grande e a Praça Castro Alves, desfilam osblocos tradicionais, por ordem de antigüidade. Na praia, entre a Barra e Ondina, desfilam os blocos fundados de dez anos para cá . Cada bloco sai em dois ou três dias diferentes, e tanto os tradicionais quanto os novos sempre contratam grandes bandas. Essas bandas podem ser nomes de projeção nacional -- Timbalada, Daniela Mercury, Olodum, Banda Eva, Chiclete com Banana, Netinho, Ara Ketu, É o Tchan -- ou ser ídolos regionais com reputação de grandes animadores de trio, como Asas de Águia, Ricardo Chaves, Cátia Guimma, Jammil. Na segunda-feira o Beijo sairia com aBanda Beijo -- que tem aquela menina Gil como vocalista (hit: "Peraê"). Nos desfiles de sábado (que eu perdi) e de terça, a atração era o Netinho.

Acabei chegando cedo demais ao Campo Grande. Meu bloco demorou quatro latinhas, um acarajé e dois queijos de coalho para sair. Fiquei observando os abadás dos outros blocos -- assim como o meu, quase todos pareciam uniforme de time de futebol: uma Holanda aqui, um Bragantino ali. De repente passaram vários meninos com uma camiseta igual, onde se lia nas costas: CORDEIRO. Fiquei intrigado. Quem seria Cordeiro? Um meia-esquerda do Bahia? Um juvenil do Fluminense de Feira que foi vendido ao PSV Eindhoven e já se naturalizou para disputar a Copa Européia pela seleção da Finlândia? Não. "Cordeiro", descobri logo em seguida, é o nome do profissional que segura a corda do bloco e não deixa a pipoca invadir.

E a pipoca, você sabe, é o retrato do povo brasileiro: alegre, festeiro, paciente, pacífico -- numa palavra, a-ter-ro-ri-zan-te.

O Beijo saiu, e minha primeira impressão foi que eu não estava usufruindo de um espaço condizente com os R$ 450 que eu tinha pago pelo abadá. Na minha ingenuidade de neófito, eu imaginava que do lado de dentro do cordão de isolamento o folião poderia se movimentar com mais facilidade do que Zinédine Zidane na área do Brasil. Nananinanina. Em alguns trechos do desfile, a única diferença entre você e a pipoca é o seu abadá. Você é uma pipoca oficial, uma pipoca de uniforme, uma pipoca com crachá . Não que isso incomode os desfilantes. Na verdade, a proximidade física de pessoas do sexo oposto com grana suficiente para estar ali apenas facilita a prática do esporte oficial do carnaval de Salvador: o beijo roubado. A todo momento espocam beijos hollywoodianos entre adolescentes que "ficam" 30 segundos, 45 segundos, um minuto -- e se separam. Mas se você quiser só dançar, fique à vontade. Não importa quem esteja em cima do trio, nas próximas quatro horas você vai poder balançar ao som de todos os hits da música baiana, incluindo os das outras bandas. Os refrões mais fortes são precedidos do comando "SAI DO CHÃO!!!!" , e daí é como comemorar um gol. (Ao final do desfile a sensação é que o seu time ganhou de 150 a zero.)

Com tantos blocos saindo em locais e horários conflitantes, você precisa se organizar para aproveitar tudo o que o carnaval de Salvador tem a oferecer. Agora: se você tiver amigos influentes, então não esqueça de trazer agenda e secretária (um helicóptero também não iria mal). Na metade do desfile do Beijo, no centro, eu já estava atrasado para ver a o Crocodilo, o bloco de Daniela Mercury, que passaria na praia. Eu tinha convite para assistir ao Crocodilo do melhor ponto de observação possível: o próprio camarote de Daniela -- onde políticos, socialites, artistas, patrocinadores e candidatos a patrocinadores são mantidos a salvo da fome e da sede por Lícia Fábio. (Lícia é uma espécie de chefe informal do cerimonial da Bahia. Se você só tiver direito a conhecer uma pessoa em Salvador, trate de preencher sua cota com Lícia Fábio.)

Devo admitir que a primeira vez que me acenaram com o convite eu achei esquisitíssimo. Eu não queria "assistir de camarote": eu queria pular o carnaval. Mas eu ainda não tinha me dado conta de que o carnaval na Bahia é muito mais que uma sessão de aeróbica -- é um festival de música pop. E a melhor maneira de assistir a todos os shows é, sim, em cima de um camarote -- onde, por sinal, você vai estar na mesma altura do artista se apresentando no trio. Acabei perdendo o show de Daniela, mas vi de pertinho as duas Sheilas Perez. E adorei o trio MPB de Margareth Menezes -- com Elza Soares, Edson Cordeiro e Jair Rodrigues de convidados. Fiquei pensando: por que não um trio dos Paralamas? Um trio do Skank? Um trio do Lulu Santos?

E como mordomia pouca é bobagem, no dia seguinte meu amigo Pedro me ligou para dizer que sua namorada Karla tinha conseguido um lugar para mim (e para meu amigo Nick também) em cima do trio da Banda Eva. Era o último desfile de Ivete Sangalo como funcionária, antes de partir para o sonho do trio próprio, o Maderada. Você deve ter visto Ivete chorando na TV. Eu vi ali, em cima do trio. Vi também Ivete olhando e acenando para a pipoca em todas as direções. Vi três adolescentes na janela de um prédio terem uma crise de choro histérico porque Ivete estava olhando para o outro lado da rua quando o trio passou por elas. Vi Ivete parar tudo e dizer: "eu não sou melhor que vocês, não. Eu sou melhor com vocês". Uma gracinha, Ivete Sangalo. E pensar que no ano que vem ela vai fazer sucesso em outro trio -- e a gente muito provavelmente vai babar também por Emanuelle Araújo, sua sucessora no Eva. Vou contar uma coisa para vocês: se o futebol brasileiro tivesse a competência e a vitalidade da indústria do carnaval da Bahia, não só todos os nossos ídolos continuariam jogando aqui, como a Copa do Mundo iria ser sempre no Brasil.

Depois de descer do Eva ainda saí no Beijo (você vai me desculpar, mas eu adoro Netinho), passei no camarote de Daniela Mercury e fui atrás do Crocodilo. Oito quadras mais tarde, quando Daniela cantou "Chuva, suor e cerveja", dei por completa minha experiência baiana e fui pulando até o ponto de táxi.


(Próxima parada: Quarta-feira de cinzas.)