Domingo: Rio de Janeiro


Além de ser um dos melhores lugares para se passar o carnaval, o Rio (pronuncia-se Ríiiu) é também, disparado, o melhor lugar para quem quer fugir completamente da folia. Primeiro, porque a população debanda -- o que torna o Rio o único ponto de toda a costa brasileira que fica mais vazio entre o sábado de Zé Pereira e a quarta-feira de cinzas do que no resto do ano. Depois, porque enquanto no Recife ou em Salvador o carnaval persegue você dia e noite por toda parte, no Rio a festa tem local e horário definidos. Participar dela é uma decisão de foro íntimo, que depende inteiramente da sua iniciativa pessoal. Tanto assim, que chegar ao Rio em pleno domingo de carnaval é como chegar ao Rio em plena Bienal do Livro: você só fica sabendo do evento se abrir os jornais ou ligar a TV.

Graças a um atraso de duas horas e meia da Transbrasil, meu tempo em terra firme estava tão cronometrado quanto desfile de escola de samba. De cara, tive apenas45 minutos para torturar os vizinhos de meu amigo Romildo (que me deixou as chaves de seu apartamento no Leblon) com a execução ininterrupta do samba-enredo do Salgueiro, faixa 7 do CD das escolas do grupo especial. Felizmente, deu para decorar o refrão -- tanto eu quanto os vizinhos: "tem jangada no mar/mareia, meu amor/mareia... ". De lá saí atrasado para a Conspiração Filmes, em Botafogo, onde eu teria uma rápida reunião de trabalho (nas horas não-vagas eu sou publicitário) e pegaria minha fantasia, que eles gentilmente tinham mandado buscar na sede da ala Vai Sacudir, na Tijuca. Até então, tratava-se de uma fantasia virtual: eu tinha escolhido pela Internet, pago com DOC via home-banking e combinado os detalhes de entrega por e-mail. E agora ela estava ali, materializada do jeitinho que eu tinha visto no site (eu escolhi a fantasia que tinha menos plumas). Tudo muito asséptico, organizado, cibernético.

Sinal dos tempos. A primeira vez que desfilei, em 1994, pela Imperatriz Leopoldinense, o processo ainda era todo analógico. Tive o privilégio de conseguir sair numa ala cuja dona era ninguém menos que a porta-bandeira Maria Helena, a grande estrela da escola e um dos mitos do carnaval carioca. Como a entrega atrasou, tivemos que ir em bando até a favela do Buraco Quente, no dia do desfile, buscar as fantasias onde elas estavam sendo confeccionadas: no próprio barraco da Maria Helena (algo como você ser figurante em "Central do Brasil" e ir buscar seu figurino na casa da Fernanda Montenegro). Maria Helena estava num mau humor do tamanho de um carro alegórico, tresnoitada por ter desfilado no dia anterior em São Paulo -- e nada indicava que ela se recuperaria até à noite. Enquanto ela implicava com isso ou aquilo, um pequeno exército de parentes e vizinhos aplicava plumas e laminados nas fantasias, empesteando o ar de cola e nos fazendo sair de lá pré-doidões para o desfile. No final, Maria Helena esteve majestosa como sempre e a Imperatriz foi campeã.

Voltando a 1999: coloquei minha fantasia do Salgueiro no porta-malas, deixei o carro alugado num estacionamento mambembe a três quadras do Sambódromo (R$ 5 com portão fechado a chave; uma pechincha, pelos padrões paulistanos), e parti para meu primeiro desfile como espectador. No meio da noite eu sairia para pegar a fantasia no estacionamento, desfilar e ainda voltar à minha mesa no setor 5 para ver o resto do desfile. (Só depois de passar pela borboleta do Sambódromo é que eu notei a turistada deixando suas fantasias numa sala improvisada como guarda-volumes. Ou seja: toda a complexa operação fantasia/porta-malas/carro alugado/estacionamento poderia ter sido evitada.)

Quais as diferenças entre ver da mesa de pista e assistir pela TV? Uma coisa, infelizmente, é igual: a luz. Nas vezes em que desfilei eu nem tinha reparado nisso, mas foi só virar platéia para me dar conta de que era a primeira vez que eu via um mega-show iluminado por luz branca. Aqueles refletores de estádio podem ser ótimos para transmissões de jogo de futebol, mas não servem para iluminar espetáculos da Broadway. Joãozinho Trinta vem reclamando disso há anos, e por conta própria está instalando refletores de show em alguns carros alegóricos. Na verdade, a maior prova do talento dos carnavalescos é o fato de eles conseguirem fazer desfiles deslumbrantes apesar daquela luz de serão no escritório.

Já o quesito destaques & celebridades fica muito mais interessante ao vivo do que na telinha. Localizar rostos (e corpos) conhecidos no meio do bololô é bem mais divertido do que receber aquelas pessoas prontas e editadas no enquadramento de sempre. A mesma coisa vale para as peladonas: soltas na avenida, em plano geral, elas são muito mais provocantes e transgressoras do que quando aprisionadas nos closes da TV. Não, não é uma vinheta globeleza: é o carnaval no Rio. Mas para mim nada supera a revelação do SOM. Assim, em maiúsculas, mesmo. Depois de uma vida inteira acompanhando o desfile pelos alto-falantes da TV da minha casa, só agora, assistindo na avenida, eu consegui perceber que as baterias tocam de maneira diferente em cada escola. Sim, cada bateria tem seu próprio baticum. Isto é incrível. Estou pasmo até agora.

Quem quer desfilar e depois voltar para o seu lugar precisa deixar que atarrachem uma fita vermelha apertadíssima no seu pulso. A fita é apertadíssima por dois motivos: 1) para você não conseguir passar a pulseira adiante para outra pessoa na avenida; 2) para testar a eficiência do serviço de assistência médica em casos agudos de gangrena.

Saí, fui até o estacionamento mambembe, vesti minha fantasia inteira pela primeira vez. Pois bem. Eu diria que a única vantagem de não ter mais mãe viva é poupar uma senhora distinta de ver fotos que provem que o seu filho um dia já saiu por aí de: legging amarelo; sunga verde-limão; botas de cano alto combinando com a sunga; camiseta verde, amarela e azul com uma estrelona de lantejoulas douradas no peito; um tucano empoleirado nas costas, de onde saem hastes flexíveis com pompons verdes e pompons amarelos; e um escudo azul com estrela dourada para ser empunhado pela mão direita. Muito prazer, Capitão América do Sul.

Só que esse vem a ser o grande barato do desfile no Rio: fazer você se fantasiar de alguma coisa muito extravagante, e poder botar toda a culpa no carnavalesco da escola. Dali a pouco, na sua ala, você vai encontrar mais 150 na mesma situação constrangedora. Juntos, vocês vão esquecer que estão vestindo algo ridículo e vão cantar alguma coisa que tampouco vai fazer sentido, tipo "tem jangada no mar/mareia, meu amor/mareia". (Mas o melhor é quando você já sai fantasiado de casa. Descer o elevador fantasiado, atravessar o saguão do hotel fantasiado, passar na roleta do metrô fantasiado, encontrar outros componentes com a sua fantasia ainda no vagão -- tudo isso talvez seja mais divertido até do que desfilar.)

Tendo desfilado duas vezes pela Imperatriz, uma escola que sempre ganha o júri mas dificilmente ganha a arquibancada, sair no Salgueiro se revelou uma experiência totalmente diferente: a torcida levanta, canta junto, agita bandeirolas. Ali embaixo, na avenida, você tem 60 minutos para cumprir o seu papel -- mezzo figurante de teatro rebolado, mezzo jogador de futebol em decisão de campeonato. Aproveite. Em nenhum outro grande palco do carnaval brasileiro você vai dispor de tanto espaço por tanto tempo. Enquanto a sua fantasia não começar a se desintegrar, você está livre para pular. A não ser que surja algum problema técnico -- como aconteceu com a minha ala. Em ação, nossa fantasia de Capitão América do Sul se transformou num artefato bélico de alto impacto. Toda vez que alguém empreendia um movimento ousado -- como atravessar a ala de um lado para o outro, fazer uma curva brusca ou ultrapassar um outro componente -- fazia com que os tais pompons verdes e pompons amarelos ligados por hastes flexíveis às asas do tucano virassem verdadeiras boleadeiras de peão. Depois de levar umas três pomponzadas na cara (e distribuir outras tantas), resolvi não fazer de minha fantasia uma arma, e sambei na mesma longitude até o final da avenida.

De volta à mesa de pista, acompanhei as escolas restantes se sucederem uma igual à outra, feito capas de disco do Roberto Carlos. Os gringos das mesas próximas já tinham ido todos embora quando passou a escola que valeria a noite: a Viradouro -- que claramente pertencia a uma outra categoria, quase justificando um ingresso à parte. Quando deixei a Sapucaí, perto das 6 da manhã, eu só pensava em duas coisas. Uma: por que não entregam logo a direção geral desse negócio para o Joãozinho Trinta? A outra: será que eu ia conseguir dar uma cochiladinha antes do vôo para Salvador?


(Próxima parada: Bahia.)