Sábado de manhã: Recife


Tradicionalmente, o Galo da Madrugada é o primeiro grande evento do carnaval brasileiro. Por mais que alguns lugares (incluindo o próprio Recife) tentem antecipar o início dos trabalhos, o certo é que o país só entra em estado de carnaval depois que assiste na TV à mesma tomada aérea de sempre: o centro da cidade invadido por mais de um milhão de pessoas, e uma voz familiar ao fundo dizendo "Fernando José, do Recife, para o Jornal Hoje".

O que aquela gente toda está fazendo nesse formigueiro? Pulando carnaval? Não: entrando no Guinness. Todos os anos, a população inteira do Recife comparece pessoalmente e ainda leva os vizinhos, com o objetivo expresso de quebrar o recorde de público do Galo anterior. "O maior bloco de carnaval do mundo", proclamam os jornais. Com efeito: o domingo e a segunda-feira são do Rio, terça só dá Salvador, e mesmo nos outros dias as estrelas do carnaval pernambucano são os bonecos de Olinda -- mas no sábado quem reina é o Recife.

Se alguém pedir minha opinião, no entanto, vou dizer que a graça de sair no Galo não está em ajudar a engordar as estatísticas. O genial do Galo da Madrugada é fazer você acordar cedo para pular carnaval. Tomar café pensando em carnaval. Ver gente fantasiada na rua às oito da manhã. Encontrar sua turma às 8 e meia. E, o mais imprescindível de tudo: chegar antes das 10 e pegar o comecinho do desfile.

Quem pega o Galo no início, ainda no bairro de São José -- muito antes de haver quórum que justifique um boletim ao vivo do helicóptero da Globo -- encontra o bem mais raro do carnaval: espaço para pular. Como eu vim a descobrir nesses quatro dias, pular carnaval no Brasil é muito parecido com ser empurrado para dentro de um vagão do metrô de Tóquio na hora do rush. Mas o começo do Galo é uma exceção: você ainda tem seu espaçozinho para brincar, e mesmo para tentar aprender um ou outro passo do frevo. (Acredite: a três Schincariol por R$ 2, até você consegue frevar.)

Lá pelo meio-dia, quando a sua seção do Galo entra na rua da Concórdia, ocorre um fenômeno curioso: o seu protetor solar perde o efeito, desponta a primeira bolha dentro do seu All Star, e você tem a nítida sensação de que o desodorante de todo mundo à sua volta venceu. Daí você tenta enxugar o suor de uma sobrancelha, e só então percebe que sua mão direita está imobilizada ao redor de uma latinha que não contém mais cerveja, mas que serve de amortecedor entre o seu peito e as costas de uma camiseta amarela onde se lê a palavra ROMÁRIO. Nesse momento você desconfia que chegou a hora de desistir de entrar no Guinness e resolve ir pegar uma praia, porque o carnaval é uma criança e à tarde ainda tem Olinda.


(Próxima parada: Olinda.)