Sábado ao entardecer: Olinda
Com as forças restabelecidas pelo caldinho de sururu, pela dobradinha, pela carne-de-sol, pela macaxeira e pelo jerimum de dona Elenita, e com o pé devidamente acolchoado por Band-Aids, lá fui eu para a segunda estação da minha via sacra carnavalesca.
Olinda (pronuncia-se Oh!linda)é o cenário mais bonito que alguém já mandou construir para um baile de carnaval. As casinhas coloridas já vêm fantasiadas (de Brasil Colonial), e os moradores -- uma mistura de gente simples, artistas e malucos-beleza -- são foliões naturais. Junte-se a isso as orquestrinhas de frevo que sobem e descem as ladeiras carregando tubas, trombones e clarins, e você tem o carnaval mais encantador do país.
Nas ruelas de Olinda são amplificadas todas as qualidades do carnaval de Pernambuco: a espontaneidade, a democracia, o amadorismo -- a zona, mesmo. É o último carnaval "de esquerda", em que ninguém paga nada para entrar, e onde você passa a maior parte do tempo a salvo de patrocínios e merchandisings. As pessoas ainda se fantasiam, muitas em blocos de três (os hits deste ano: DDDs e Tiazinhas). As meninas bonitas do Recife vêm "brincar" à tarde, e os turistas são definitivamente mais "cabeça" e menos "maurícios" do que os que vão a Salvador.
Para quem quer frevar no pé -- ou, como se diz aqui, fazer o passo-- a dica é a mesma do Galo: descobrir os blocos no início de seus desfiles, longe dos focos de aglomeração. Só assim você vai conseguir chegar perto dos metais e sentir o efeito de ouvir "Vassourinhas" em seu habitat natural. (Depois que o seu bloco passa por lugares movimentados, como o entroncamento dos Quatro Cantos, você acaba se distanciando da orquestra, não ouvindo mais nada e tendo que usar sua latinha como amortecedor entre o seu peito e as costas de uma camiseta qualquer com dizeres tipo ACESSÓRIOS PARA CELULAR.) Até o final do carnaval você vai ter aprendido a cantar o hino do Elefante (oh!linda/quero cantar/a ti/esta canção), que é de arrepiar, e a reconhecer o refrão dos metais de mais quatro ou cinco frevos de antologia.
Entre a passagem de um bloco e outro, a coisa se acalma, e você fica livre para zanzar pelas ruelinhas, paquerar, ou ficar bebendo cerveja em frente aos botecos, ao som dos últimos sucessos da música baiana. MÚSICA BAIANA? Não, você não entendeu mal. Toda música mecânica que se ouve nos alto-falantes dos botecos de Olinda vem da Bahia: dê-lhe Timbalada, Netinho, Ara Ketu, Banda Eva. Os fundamentalistas costumam espumar contra esta "invasão estrangeira", mas mesmo na folia esquerdista de Olinda o mercado acaba prevalecendo. Sem consumidores suficientes para justificar o investimento da indústria fonográfica (ao contrário do que acontece com o forró e o mangue-beat, seus conterrâneos), o frevo é uma música ameaçada de extinção. Isso confere tons ecológicos ao carnaval pernambucano: sair atrás de uma orquestra de metais em Olinda é como ir ver tartarugas marinhas em Fernando de Noronha.
A diferença é que Noronha limita o número de visitantes, e Olinda está a cada ano mais lotada. Para não me acusarem de contribuir para piorar a situação, encerro meu relato pernambucano fazendo propaganda do novo carnaval que vem se realizando nos bairros restaurados do Recife Antigo -- não tive tempo de conferir, mas pelo que dizem é (quase) tão charmoso quanto a festa em Olinda.
(Próxima parada: Sambódromo.)
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