Não existe truque de contabilidade que justifique
torrar uma parcela tão significativa do seu rendimento anual em
algo que só se materializa em fotografias.
Por mais econômica que seja sua viagem, você
acaba gastando para passear aquilo que seus bisavós usariam
para reiniciar a vida em outro país. Não adianta
ficar contando tostões depois de decolar -- o seu atestado de perdulário
é lavrado no exato momento em que você decide viajar.
De modo que só nos resta encarar os fatos:
o empobrecimento momentâneo é a seqüela imediata e inevitável
de qualquer viagem. Simples assim.
Na maioria dos casos, felizmente, trata-se de uma
bancarrota temporária. Nos onze meses que costumam se seguir
a uma viagem, tiramos sabe-se lá de onde a capacidade de nos endividar
novamente -- e assim vamos levando. Existe uma explicação
quase científica para isso: é que a única maneira
de viajar mais é trabalhar mais. Com o quê, os viciados
em viagem são os únicos viajandões produtivos do
mundo.
Pense bem: você conhece alguém que tenha
arruinado sua vida por viajar demais? Ao contrário do álcool,
das drogas e do jogo, viajar não faz mal. Não destrói
famílias. Não joga ninguém na sarjeta. Não
leva pessoas decentes ao roubo ou à prostituição.
É muito mais fácil alguém se estrepar de verde
e amarelo porque comprou um apartamento na planta do que por ter ido de
táxi do aeroporto para o hotel em Madri.
O problema é que nunca pensamos nisso na hora
de planejar uma viagem. Nesse instante, o que fala mais alto são
os milhares de anos de tradição judaico-kardeco-umbando-cristã
-- e dê-lhe regular micharias só para ter a oportunidade
de sofrer um pouquinho.
Calma lá. Classe econômica, tudo bem.
Classe pelourinho, classe ajoelhar no milho e classe depilação
com cera quente já é um pouco demais.
Veja a seguir como evitar as armadilhas que o inconsciente
-- este verdadeiro agente de viagem do demo -- tem o hábito de
aprontar para cima da gente.
Acredite: avião pode ser mais barato que
trem.
Um dos erros mais comuns de viajantes iniciantes (e de outros nem tão
iniciantes assim) é comprar a passagem aérea só até
o ponto mais próximo do Brasil e fazer o resto do trajeto todo
de trem, achando que está economizando horrores. Não é
assim. Quando fazem parte de uma passagem intercontinental, os trechos
"internos" saem uma pechincha, e muitas vezes conseguem ganhar até
dos passes de trem (principalmente se você já passou da idade
dos descontos -- geralmente, 26 anos). Por exemplo: se você vai
à Europa e quer fazer até quatro escalas, seguramente fazer
todo o percurso de avião sai mais barato do que de trem. Outra
cochilada que acomete muitos viajantes é descer do avião
na capital, quando seu destino é uma cidade do interior que também
tem aeroporto: na imensa maioria dos casos, a milhagem da sua passagem
daria direito de ir até esta cidade sem custo adicional. (A "extravagância"
de ir de avião até o destino final, além de não
custar nada, pode lhe poupar uma viagem de trem ou uma diária de
carro alugado.)
Não transforme o trem em hotel.
É a chamada "síndrome de Eurailpass". O sujeito descobre
que pode economizar noites e mais noites de hotel aproveitando seu passe
para cruzar e recruzar a Europa em trens noturnos. Fazer a mesma viagem
a bordo de um jerico não seria uma idéia menos inteligente.
Um Intercity entre Viena e Paris é tão desconfortável
quanto um Itapemirim entre São Paulo e Quixadá. Sem falar
que, enquanto para você uma noite sem banho é apenas uma
noite sem banho, para seus companheiros europeus de cabine pode ser a
terceira ou quarta (e no inverno, janela fechada é batata). Forget
it. Dedique toda essa energia mochileira e esse inquebrantável
espírito muquirana para contactar -- do Brasil e com antecedência
-- os melhores albergues nas cidades onde você pretende ficar.
Leasing de carro? Depende do que você quer
fazer.
Uma das maiores pechinchas turísticas na Europa pode ser fazer
um leasing de carro zero quilômetro na França (qualquer coisa
tipo US$ 500 para 21 dias de uso). Digo "pode ser" porque tudo vai depender
do tipo de viagem que você faça. Se for para explorar regiões
interioranas, ótimo. Agora: se for para zanzar de um extremo do
continente a outro e voltar, nananinanina. Por mais que você goste
de dirigir, passar metade da sua viagem atrás do volante em auto-estradas
é no mínimo perigoso, e exageradamente cansativo. Você
começa se achando um Niki Lauda e acaba se sentindo o próprio
caminhoneiro. Além disso, dirigir em cidade grande só é
aconselhável num caso: como terapia para você começar
a achar o trânsito da sua cidade ótimo. Nesses casos, faça
como meu amigo Gabriel Zellmeister e encoste o carro na garagem (se seu
hotel não tiver, deixe num estacionamento seguro e livre-se desse
peso).
Táxi nem sempre é luxo.
Andar de metrô e ônibus é civilizado, saudável
e superválido -- principalmente para nós, brasileiros classe-média,
que desenvolvemos alergia a transporte público dentro do território
nacional. A-go-ra: sem exageros. Existem duas viagens de táxi que
são sagradas, mesmo para o mais duro dos turistas: o táxi
pós-aterrissagem no exterior e o táxi pré-volta ao
Brasil. Nem o mais pestilento dos vira-latas merece amanhecer num aeroporto
gélido de um país desconhecido, depois de uma viagem-pesadelo
de 11 horas na classe econômica, e ter que se virar para encontrar
seu hotel naquele emaranhado de linhas de metrô. A mesma coisa na
volta: melhor pagar promessa subindo de joelhos a escadaria da Penha do
que arrastar seu excesso de bagagem pelo excesso de baldeações
de metrô entre seu hotel e o aeroporto. Faça assim: acrescente
mentalmente 100 dólares ao preço da sua passagem; assim
ela passa a incluir o táxi da ida e o da volta. Claro que, se você
for fazer muitos trechos de avião, esse monte de taxizinhos para
ir e taxizinhos para voltar podem acabar triplicando o preço da
sua passagem. Neste caso, faça o seguinte: vá de trem ou
de metrô do aeroporto até a estação onde você
teria que fazer a primeira baldeação -- e só então
tome o táxi. Na volta, faça o contrário: vá
de táxi até a estação onde você faria
a última baldeação. Assim você não gasta
uma fortuna nem precisa ficar carregando mala para cima e para baixo.
Agente de viagem não é supérfluo.
Muita gente pensa que eliminando o agente de viagem vai pagar menos pelas
passagens ou diárias de hotel. Não mesmo: pelo menos por
enquanto, os agentes de viagens são remunerados pelas companhias
aéreas e hotéis -- que dificilmente revertem as comissões
de agente em descontos para o turista. Se você faz tudo sozinho,
acaba tendo todo o trabalho, e paga no mínimo o mesmo preço
que pagaria via agência. Um bom agente faz por você a pesquisa
de preços de passagens, e pode conseguir diárias mais baratas
do que seriam oferecidas a você pelos hotéis. Sem falar que
só através de uma agência de viagens você tem
acesso aos pacotes de passagem + hotel que às vezes saem mais baratos
que a própria passagem comprada no balcão da companhia aérea.
(Para conseguir preços melhores que os do seu agente, você
tem que se dirigir a um outro agente -- e nos Estados Unidos: um consolidator,
tipo de agência que faz megacompras de diárias de hotel e
assentos de avião com megadescontos, e repassa parte dos descontos
para o consumidor). Para saber como usar melhor seu agente, não
deixe de ler o capítulo 15,Agente de viagem: não saia
de casa sem ele.
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