Capítulo 13:
Pequenas economias, grandes roubadas


Está escrito: toda viagem é uma extravagância (Viaje na Viagem, capítulo 1, versículo 1).

Não existe truque de contabilidade que justifique torrar uma parcela tão significativa do seu rendimento anual em algo que só se materializa em fotografias.

Por mais econômica que seja sua viagem, você acaba gastando para passear aquilo que seus bisavós usariam para reiniciar a vida em outro país. Não adianta ficar contando tostões depois de decolar -- o seu atestado de perdulário é lavrado no exato momento em que você decide viajar.

De modo que só nos resta encarar os fatos: o empobrecimento momentâneo é a seqüela imediata e inevitável de qualquer viagem. Simples assim.

Na maioria dos casos, felizmente, trata-se de uma bancarrota temporária. Nos onze meses que costumam se seguir a uma viagem, tiramos sabe-se lá de onde a capacidade de nos endividar novamente -- e assim vamos levando. Existe uma explicação quase científica para isso: é que a única maneira de viajar mais é trabalhar mais. Com o quê, os viciados em viagem são os únicos viajandões produtivos do mundo.

Pense bem: você conhece alguém que tenha arruinado sua vida por viajar demais? Ao contrário do álcool, das drogas e do jogo, viajar não faz mal. Não destrói famílias. Não joga ninguém na sarjeta. Não leva pessoas decentes ao roubo ou à prostituição. É muito mais fácil alguém se estrepar de verde e amarelo porque comprou um apartamento na planta do que por ter ido de táxi do aeroporto para o hotel em Madri.

O problema é que nunca pensamos nisso na hora de planejar uma viagem. Nesse instante, o que fala mais alto são os milhares de anos de tradição judaico-kardeco-umbando-cristã -- e dê-lhe regular micharias só para ter a oportunidade de sofrer um pouquinho.

Calma lá. Classe econômica, tudo bem. Classe pelourinho, classe ajoelhar no milho e classe depilação com cera quente já é um pouco demais.

Veja a seguir como evitar as armadilhas que o inconsciente -- este verdadeiro agente de viagem do demo -- tem o hábito de aprontar para cima da gente.


Acredite: avião pode ser mais barato que trem.
Um dos erros mais comuns de viajantes iniciantes (e de outros nem tão iniciantes assim) é comprar a passagem aérea só até o ponto mais próximo do Brasil e fazer o resto do trajeto todo de trem, achando que está economizando horrores. Não é assim. Quando fazem parte de uma passagem intercontinental, os trechos "internos" saem uma pechincha, e muitas vezes conseguem ganhar até dos passes de trem (principalmente se você já passou da idade dos descontos -- geralmente, 26 anos). Por exemplo: se você vai à Europa e quer fazer até quatro escalas, seguramente fazer todo o percurso de avião sai mais barato do que de trem. Outra cochilada que acomete muitos viajantes é descer do avião na capital, quando seu destino é uma cidade do interior que também tem aeroporto: na imensa maioria dos casos, a milhagem da sua passagem daria direito de ir até esta cidade sem custo adicional. (A "extravagância" de ir de avião até o destino final, além de não custar nada, pode lhe poupar uma viagem de trem ou uma diária de carro alugado.)


Não transforme o trem em hotel.
É a chamada "síndrome de Eurailpass". O sujeito descobre que pode economizar noites e mais noites de hotel aproveitando seu passe para cruzar e recruzar a Europa em trens noturnos. Fazer a mesma viagem a bordo de um jerico não seria uma idéia menos inteligente. Um Intercity entre Viena e Paris é tão desconfortável quanto um Itapemirim entre São Paulo e Quixadá. Sem falar que, enquanto para você uma noite sem banho é apenas uma noite sem banho, para seus companheiros europeus de cabine pode ser a terceira ou quarta (e no inverno, janela fechada é batata). Forget it. Dedique toda essa energia mochileira e esse inquebrantável espírito muquirana para contactar -- do Brasil e com antecedência -- os melhores albergues nas cidades onde você pretende ficar.


Leasing de carro? Depende do que você quer fazer.
Uma das maiores pechinchas turísticas na Europa pode ser fazer um leasing de carro zero quilômetro na França (qualquer coisa tipo US$ 500 para 21 dias de uso). Digo "pode ser" porque tudo vai depender do tipo de viagem que você faça. Se for para explorar regiões interioranas, ótimo. Agora: se for para zanzar de um extremo do continente a outro e voltar, nananinanina. Por mais que você goste de dirigir, passar metade da sua viagem atrás do volante em auto-estradas é no mínimo perigoso, e exageradamente cansativo. Você começa se achando um Niki Lauda e acaba se sentindo o próprio caminhoneiro. Além disso, dirigir em cidade grande só é aconselhável num caso: como terapia para você começar a achar o trânsito da sua cidade ótimo. Nesses casos, faça como meu amigo Gabriel Zellmeister e encoste o carro na garagem (se seu hotel não tiver, deixe num estacionamento seguro e livre-se desse peso).


Táxi nem sempre é luxo.
Andar de metrô e ônibus é civilizado, saudável e superválido -- principalmente para nós, brasileiros classe-média, que desenvolvemos alergia a transporte público dentro do território nacional. A-go-ra: sem exageros. Existem duas viagens de táxi que são sagradas, mesmo para o mais duro dos turistas: o táxi pós-aterrissagem no exterior e o táxi pré-volta ao Brasil. Nem o mais pestilento dos vira-latas merece amanhecer num aeroporto gélido de um país desconhecido, depois de uma viagem-pesadelo de 11 horas na classe econômica, e ter que se virar para encontrar seu hotel naquele emaranhado de linhas de metrô. A mesma coisa na volta: melhor pagar promessa subindo de joelhos a escadaria da Penha do que arrastar seu excesso de bagagem pelo excesso de baldeações de metrô entre seu hotel e o aeroporto. Faça assim: acrescente mentalmente 100 dólares ao preço da sua passagem; assim ela passa a incluir o táxi da ida e o da volta. Claro que, se você for fazer muitos trechos de avião, esse monte de taxizinhos para ir e taxizinhos para voltar podem acabar triplicando o preço da sua passagem. Neste caso, faça o seguinte: vá de trem ou de metrô do aeroporto até a estação onde você teria que fazer a primeira baldeação -- e só então tome o táxi. Na volta, faça o contrário: vá de táxi até a estação onde você faria a última baldeação. Assim você não gasta uma fortuna nem precisa ficar carregando mala para cima e para baixo.


Agente de viagem não é supérfluo.
Muita gente pensa que eliminando o agente de viagem vai pagar menos pelas passagens ou diárias de hotel. Não mesmo: pelo menos por enquanto, os agentes de viagens são remunerados pelas companhias aéreas e hotéis -- que dificilmente revertem as comissões de agente em descontos para o turista. Se você faz tudo sozinho, acaba tendo todo o trabalho, e paga no mínimo o mesmo preço que pagaria via agência. Um bom agente faz por você a pesquisa de preços de passagens, e pode conseguir diárias mais baratas do que seriam oferecidas a você pelos hotéis. Sem falar que só através de uma agência de viagens você tem acesso aos pacotes de passagem + hotel que às vezes saem mais baratos que a própria passagem comprada no balcão da companhia aérea. (Para conseguir preços melhores que os do seu agente, você tem que se dirigir a um outro agente -- e nos Estados Unidos: um consolidator, tipo de agência que faz megacompras de diárias de hotel e assentos de avião com megadescontos, e repassa parte dos descontos para o consumidor). Para saber como usar melhor seu agente, não deixe de ler o capítulo 15,Agente de viagem: não saia de casa sem ele.


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