Viagem & Turismo, maio:
Cape Cod, Nantucket, Martha's Vineyard


Em novembro de 1620, os peregrinos ingleses que viajavam no Mayflower -- e que se tornariam os fundadores espirituais dos Estados Unidos -- aportaram num lugar próximo ao que hoje é Provincetown, em Cape Cod. A infertilidade da terra e a inclemência daquele inverno, no entanto, fizeram com que eles dessem no pé 30 dias depois.

Ainda hoje os americanos continuam evitando Cape Cod no inverno -- mas correm para lá em massa, assim que começa a esquentar. E só não ficam aqueles 30 dias dos peregrinos por um único motivo: americanos não têm férias de 30 dias, coitados. Os Clinton (eles mesmo: Bill, Hillary e Chelsea), por exemplo, só ficam uma semana por ano, sempre em casa alugada. (Já os Kennedy -- John e Jackie incluídos -- tinham uma casa de veraneio, que hoje virou museu.)

Cape Cod continua fiel à simplicidade dos primeiros americanos. A diferença é que o rústico, agora, virou chic. Cape Cod -- e suas ilhas, Nantucket e Martha's Vineyard -- se tornou a meca de quem busca hoteizinhos mobiliados como casas, restaurantes disfarçados de salas de jantar, e lojinhas onde se pode fuçar quinquilharias das avós alheias. Ir a Cape Cod é como passar férias dentro de uma revista de decoração.


Cape Cod, a Disney dos antiquários

Cape Cod não é propriamente uma ilha, mas uma península em forma de braço fazendo muque (ou dando uma "banana": você decide) que foi separada do continente por um canal artificial. Seu nome, "Cabo Bacalhau", se deve à abundância em suas águas do peixe favorito dos portugueses -- que era pescado, acredite, por açorianos radicados em Provincetown.

Para se deslumbrar com Cape Cod, você precisa de duas coisas. A primeira: alugar um carro. A outra: esquecer a Route 6 (a auto-estrada do cabo) e a Route 28 (que corta a zona mais povoada). Concentre-se na Route 6A, que acompanha a "costa oeste" e é a estradinha mais cênica de Cape Cod.

A Route 6A é tão pitoresca, que parece que foi cenografada especialmente para a sua passagem. Os temas vão se repetindo em intervalos constantes: casas imponentes de madeira, com gramados impecáveis e jardins floridos, são sucedidas por bosques verdíssimos e manicurados, que então dão lugar a enclaves de lojinhas saídas de algum episódio dos Waltons (lembra?). Rodando em velocidade suficientemente baixa para apreciar a paisagem, você leva uma hora e meia para percorrer toda a estrada. Se resolver parar em cada antiquário e em cada lojinha de garagem, pode levar dois dias nessa brincadeira.

Quando a 6A desemboca na Route 6, a auto-estrada passa a correr ao longo da Costa Nacional de Cape Cod -- um parque instituído pelo presidente Kennedy na década de 60, e que é composto por dunas não tão bonitas como as do Rio Grande Norte e um litoral quase tão feio quanto o do Rio Grande do Sul. Mais adiante, no entanto, você chega à encantadora vilazinha de Wellfleet e, na ponta do cabo, a Provincetown, a colênia gay de Cape Cod, onde além de admirar os exóticos costumes locais você pode fazer mini-cruzeiros para observação de baleias.


Uma colônia de férias GLS: Provincetown

No começo do século, Provincetown foi descoberta por intelectuais e artistas nova-iorquinos do Village, que iam até lá à procura de tranqüilidade para escrever livros e peças de teatro. Em torno deles foi-se estabelecendo uma comunidade liberal e liberada, que acabou se transformando num ímã para casais de gays e de lésbicas em férias. (Não é à toa que os puritanos se mandaram rapidinho em 1620: eles já deviam ter pressentido no que aquilo ia dar.)

Hoje Provincetown é (como não poderia deixar de ser) a cidade mais animada de Cape Cod. Famílias inteiras, com crianças pequenas e tudo, saem dos mais diversos pontos do cabo para ir fazer o footing no final da tarde na Commercial Street -- onde vão ver as galerias, os restaurantes, as lojinhas de coisas engraçadas e, por que não, os casais "heterodoxos" passeando de mãos dadas. Tudo muito natural. Ao contrário de outros territórios gays americanos, como Castro (em San Francisco) e West Hollywood (em Los Angeles), o clima de Provincetown não é de ativismo politicamente correto. Parece mais carnaval -- em que os homens estão fantasiados de músculos, e as mulheres, de falta de maquiagem.

Para gays e lésbicas, é Shangri-La. Para quem não é, trata-se de uma rara oportunidade de se sentir parte de uma minoria sexual.


Nantucket, a Paraty deles

Com suas ruazinhas de paralelepípedos e seu casario de madeira preservadíssimo, Nantucket (pronuncia-se Nentâket) é um bijuzinho de cidade histórica. Diga para um americano que você vai para lá, e o seu conceito vai às alturas: é como se você tivesse descoberto um segredo só deles -- algo como alguém que desembarque no Brasil já pensando em ir a Paraty ou a Tiradentes.

Enquanto Cape Cod tem um pezinho no folclórico, Nantucket é bom gosto em estado puro. O comércio é mais sofisticado, os restaurantes, mais pretensiosos -- e os preços, lógico, sobem de acordo. Mas só andar na rua já é um prazer, e mesmo quem vem apenas para passar o dia acaba aproveitando.

Mesmo que você vá pernoitar em Nantucket, não traga seu carro (a tarifa do ferry é muito cara). Para explorar a ilha, você pode usar o transporte público, entrar num passeio de barco, ou, se estiver em forma, alugar uma bicicleta. O passeio mais bonito é percorrer os 11 km entre o centro e Siasconset (mais conhecida pelo apelido, 'Sconset), uma vilazinha do século XVIII, também à beira-mar, onde as casas se escondem atrás de roseiras impecavelmente mantidas. A praia, mais uma vez, não é lá grande coisa -- mas você não vai sentir saudade de Copacabana.


Martha's Vineyard, direto de um catálogo de Ralph Lauren

Toda vez que a família Clinton vem passar sua semana anual de férias em Martha's Vineyard, atraindo um enxame de repórteres, rompe-se o equilíbrio ecológico desta ilhazinha. Só existe uma coisa que Martha's Vineyard (o "Vinhedo de Marta") odeia mais do que farofeiros: jornalistas.

A vila onde aportam os ferry-boats, Vineyard Haven, é decepcionantemente sem-graça: pelo seu centrinho comercial, cheio de lojas de souvenirs, você dificilmente diria que chegou numa ilha com fama de sofisticada. Pegue um ênibus para Edgartown, no entanto, e em 15 minutos a coisa muda de figura. Casas e predinhos brancos, todos de madeira; gramados que parecem importados da Inglaterra; bandeiras americanas em profusão; gente que você vê na rua do mesmo jeito que veria num catálogo de Ralph Lauren -- agora sim, bem-vindo a Martha's Vineyard.

Se você tiver tempo, pode esticar até a vilazinha de Menemsha, provavelmente a aldeia de pescadores mais chic do mundo. E não pegue o ferry de volta sem antes dar uma passadinha em Oaks Bluff, que é a cidade mais interessante do Vineyard. Primeiro, pela arquitetura: suas casas são castelinhos de madeira pintados em cores cítricas e com barras entalhadas nas varandas. Depois, porque Oaks Bluff foi a primeira estância de veraneio dos negros americanos que enriqueceram; em respeito a esta tradição, é aqui que Spike Lee tem sua casa de praia.

Esta viagem só tem um defeito: depois de percorrer Cape Cod, Nantucket e Martha's Vineyard em poucos dias, você certamente vai eleger um lugar favorito aonde gostaria de ter ficado mais tempo. Reserve seu último dia para rever este lugar e matar um pouco da vontade. E se não for suficiente, comece já a juntar dinheiro -- para poder brincar de John Kennedy ou de Bill Clinton no seu pedacinho favorito de Cape Cod.


ONDE É MELHOR

Ficar

O que faz de Cape Cod e suas ilhas um lugar especial é que aqui é muito difícil se hospedar num hotelzão pertencente às grandes redes. Você vai ter que escolher entre centenas de "inns" e "bed-and-breakfasts", a imensa maioria com muito charme mas pouquíssimos quartos. Se você vai na alta temporada -- julho/agosto -- reserve com toda a antecedência do mundo, e não se assuste se exigirem um mínimo de 5 noites.

Em Sandwich, tente o The Inn at Sandwich Center (tel./fax 508/888-6958), que tem 5 quartos entre US$ 75 e US$ 99; os proprietários Eliane e Al Thomas falam um pouquinho de espanhol. A Dillingham House (tel. 508/833-0065, fax: 508/888-4853) tem 4 quartos entre US$ 70 e US$ 85.
Em Barnstable, a um pulinho de Hyannis, o bed-and-breakfast mais simpático é o Crocker Tavern (tel. 508/362-5115; fax 508/362-5562), com 4 quartos a partir de US$ 85.
Em Provincetown, você pode recomendar àquele casal de amigos alegres que comemorem sua segunda lua-de-mel na Brass Key Guesthouse (tel. 508/487-9005, fax 508/487-9020), com apartamentos entre US$ 100 e US$ 300 -- ou na simplesinha Ampersand Guesthouse (tel. 508/487-0959, fax 508/487-4365), com quartos entre US$ 55 e US$ 100.
Em Nantucket é difícil encontrar hotéis em conta. Pela beleza que oferece, o Woodbox Inn (tel. 508/228-0587) não é muito caro: os quartos começam em US$ 120.
Em Oaks Bluff (Martha's Vineyard), a Beach House (tel. 508/693-3955) tem vista para a praia e quartos entre US$ 80 e US$ 120.
Uma boa fonte de opções é o site Bed and Breakfast Cape Cod, com fotos de pousadas de US$ 60 a US$ 100 por todo o Cabo, mais Nantucket e Martha's Vineyard.

Comer

É muito difícil comer mal em Cape Cod e nas ilhas. Os cafés da manhã são excepcionais -- parece haver uma espécie de competição entre os bed-and-breakfasts para ver quem prepara o melhor breakfast. Lagosta e frutos do mar também valem a pena, assim como pratos típicos portugueses que ainda são preparados pela colênia lusa. E as lanchonetes têm todas aquelas porcarias deliciosas dos Estados Unidos, feitas com mais capricho. Não perca as lojinhas especializadas em caramelo ("fudge"), e o sorvete Ben & Jerry, que é tipo assim um Häagen-Dazs "de esquerda". Como o cenário, aqui, é tão importante quanto a comida, escolha o seu restaurante pelo ambiente -- e você dificilmente vai se arrepender.
Em Sandwich, o Carousel Café (Heritage Plantation) tem café da manhã, almoço e lanche no estilo das délis de Nova York.
Em Hyannis, o Steamers Grill & Bar (235 Ocean St., tel. 778-0818) serve peixes e frutos do mar num deck ao ar livre (com som ao vivo nos fins de semana).
A vilazinha de Orleans é o endereço do Kadee's Lobster & Clam Bar (212 Main St., tel. 255-6184), um dos melhores lugares para comer lagosta, caranguejo e mexilhões em todo o Cabo.
Em Wellfleet, o Finely P.J.'s (19 Freedjum Rd; tel. 394-7500) é famoso por sua comida americana de vanguarda, a preços um pouco salgados (US$ 40 por pessoa).
Em Provincetown, o The Moors (5 Bradford St. Extension, tel. 487-0840) tem ambiente deliciosamente esculhambado e comida portuguesa "for sure" (com certeza).
Ainda em P'Town, o Martin House (157 Commercial St., tel. 487-1327) talvez seja o restaurante mais criativo de Cape Cod.
Uma opção baratinha em Nantucket é o Vincent's (21 S Water St., tel. 228-0189) -- um italiano exageradamente gostoso.
Martha's Vineyard sem nariz empinado? Em Edgartown, o Main Street Diner (Old Post Office Sq.) -- é um autêntico "diner" dos anos 50, com pêsteres, mobília e, o que é mais importante, cardápio de época.
E seu passeio a Oaks Bluff ganha mais sabor no Zapotec Cafe (10 Kennebeck Ave., tel. 693-6800), que tem comida chicano-americana competente em ambiente colorido.

Passear

Provincetown é o melhor lugar para fazer um passeio de observação de baleias. O pessoal da Dolphin Fleet (tel. 1-800-826-9300) é o mais profissional, e dá crédito para um novo passeio se nenhuma baleia for vista na sua vez.
Hyannis é o porto de onde saem as excursões de barco mais "comerciais". O harbor cruise leva uma hora e deixa você espiar algumas das mansões mais bonitas do Cabo, incluindo a da família Kennedy.
Por falar nisso, o Museu John Kennedy também fica em Hyannis (397 Main St.), e exibe fotos da família em férias no Cabo.
Em Nantucket, não deixe de visitar o Museu da Pesca da Baleia (Whaling Museum, Broad St.), onde a principal atração é um esqueleto de baleia de 13 metros.
E em Martha's Vineyard, um passeio politicamente incorreto é ir até a ilhazinha satélite de Chappaquiddick, onde Ted Kennedy caiu da ponte em 1969, matando sua "secretária" e acabando com suas chances de vir a ser presidente.
Se você estiver vindo de carro de Boston, pode dar uma paradinha na ida ou na volta em Plymouth, uma espécie de Porto Seguro dos Estados Unidos, que é para onde os puritanos foram depois que resolveram não ficar em Provincetown em 1620.


CAPE COD É ASSIM:

Como chegar:
Se você vier de Boston, alugue um carro e pegue a Route 3 -- são quase 100 km até a ponte de acesso ao Cabo (depois, são mais 50 km até Hyannis ou 100 km até Provincetown).
Vindo de Nova York, o mais indicado é voar até Hyannis (1h de vêo) e só então pegar seu carro alugado. Os trechos aéreos de Nova York ao Cabo devem encarecer sua passagem internacional em cerca de US$ 200.

Quando ir:
Maio, junho e setembro são os melhores meses -- os preços estão mais em conta, os hotéis não estabelecem permanências mínimas e não é necessário fazer reservas nos restaurantes. Julho e agosto constituem a altíssima temporada: se você só puder vir nesta época, reserve com dois meses de antecedência, e desista de pernoitar nas ilhas (as pousadas exigem um mínimo de 4 ou 5 pernoites). No resto do ano, só venha se você tiver sido pingüim em alguma encarnação anterior.

O que levar
Usando roupas casuais, em cores discretas (cáqui, branco, marinho) você vai estar vestido como os freqüentadores habituais do Cabo. Não deixe de levar uma capa de chuva de nylon e um guarda-chuva portátil (chove 10 dias por mês em Cape Cod e nas ilhas).

O que evitar
Praia: não troque as praias do Nordeste brasileiro pelas praias do Nordeste dos Estados Unidos. Pule este capítulo completamente. E, no verão, não venha de Boston numa sexta-feira, nem volte num domingo, já que as pontes de acesso ao Cabo ficam entupidas e o engarrafamento é certo.

Transporte ideal
Em Cape Cod, não tem outro jeito: sem um carro você não tem liberdade para conhecer tudo o que gostaria. Nas ilhas você não precisa de carro -- existem ênibus freqüentes servindo todas as vilazinhas, e os táxis são tabelados (corridas entre US$ 5 e US$ 15). Se você fizer questão de levar seu carro, vai ter que fazer reserva com antecedência para os ferry-boats (tel. 508/477-8600), e pagar uma nota: US$ 115 para Nantucket, US$ 47 para Martha's Vineyard (tarifas de ida). Na temporada, existem 10 freqüências diárias de ferries entre Hyannis e Nantucket; 6 em ferries tradicionais (2h15' de viagem, bilhete a US$ 12) e 4 em ferries rápidos (1h de viagem, bilhete a US$ 31). Entre Hyannis e Martha's Vineyard são 4 freqüências no auge do verão (1h45' de viagem, bilhete a US$ 24). Mais próximo do continente, de Woods Hole, partem ferries de hora em hora que levam apenas 45 minutos para chegar a Martha's Vineyard (bilhete a US$ 5).
A Cape Air e a Nantucket Airlines fazem a ligação aérea entre Hyannis, Nantucket e Martha's Vineyard. Os vêos duram cerca de 20 minutos e custam, em média, US$ 70. (Se você planeja voar entre as ilhas, tente incluir esses trechos no cálculo da sua passagem internacional, e eles vão sair mais barato).

Quanto custa
Os preços de Cape Cod regulam com o que você está acostumado a pagar em outros lugares dos States. Nantucket e Martha's Vineyard são sensivelmente mais caros.
* Um prato de lagosta - US$ 18
* Uma casquinha de sorvete Ben & Jerry's - US$ 3
* Uma passagem de êAnibus entre Vineyard's Haven e Edgartown - US$ 2
* Entrada para o Museu da Pesca da Baleia em Nantucket - US$ 5
* Passeio de observação de baleias em Provincetown - US$ 19

Programa legal
Fazer o footing no fim-de-tarde na Commercial Street, em Provincetown, e comer um sonho na Portuguese Bakery, a padaria portuguesa da vila. Assistir um show de drag queens num dos barzinhos de Provincetown (elas ficam à tarde distribuindo filipetas; escolha o grupo de moças mais engraçadas e divirta-se). Percorrer a Route A6 parando nos antiquários. Dar uma espiadinha em qualquer praia e agradecer a Deus por ter nascido no Brasil.

Permanência
Se você encarar esta viagem a Cape Cod e suas ilhas como um desvio de uma viagem a Nova York ou Boston, cinco dias são suficientes. Fora do alto verão, fique três dias em Cape Cod, um dia em Nantucket e outro em Martha's Vineyard. No alto verão, quando os hotéis das ilhas exigem 5 pernoites, escolha Cape Cod ou Nantucket e vá e volte no mesmo dia aos outros dois lugares.

Toque do autor
Assim como a Toscana, na Itália, e a Provence, na França, a Nova Inglaterra é um lugar que consegue extrair o máximo de requinte do cúmulo da simplicidade. Quanto mais você procurar o rústico, o usado, o imperfeito, mais você vai encontrar a essência de Cape Cod e das ilhas. Quando você vier para cá, esqueça o pré-fabricado -- e curta este lugar onde o passado é usado para tornar o presente mais bonito, mais gostoso e mais aconchegante.
-- Ricardo Freire