Postal por escrito: Cairo, Egito


Chegamos ao Cairo alguns minutos depois da hora do rush -- tipo assim meia-noite e meia. O taxista aproveitou a falta de engarrafamento para brincar de montanha russa pelos viadutos entre o aeroporto e o centro. Aliás, deve ser registrado que o Cairo tem um Minhocão muitíssimo parecido com o de São Paulo, algo que vem a revestir de um significado ainda mais profundo a expressão "obras faraônicas de Paulo Maluf".


À primeira vista, o Cairo é mais feio e menos exótico do que seria turisticamente desejável. Mas isso se deve à baixa performance da cidade no meu recém-criado Índice Alalaô-ôôô-ôôô de Cor Local. Este índice é atribuído em resposta a uma simples pergunta: se por acaso fosse decretado de surpresa um Estado de Carnaval (tipo assim estado de sítio ou estado de emergência), qual a percentagem da população que já estaria devidamente paramentada para a ocasião?


Pelas minhas contas, o Índice Alalaô-ôôô-ôôô de Cor Local do Cairo seria de apenas uns 5% -- contra 75% na Índia e 100% no Posto 9 em Ipanema. Ou seja: com mais gente de camisolão dava para não prestar tanta atenção na poluição. Bom, mas o Marrocos está aí é para isso mesmo.


Uma parada para um chá de menta no El Fischawi (a Confeitaria Colombo do bazar Khan-el-Khalili), no entanto, é tudo o que você precisa para ser transportado para uma reprise de um filme B da Sessão da Tarde. Você vai misturando galhos inteiros de hortelã no seu copo enquanto observa os locais fumando uma mistura de tabaco e melaço no naguilé e vai tentando escapar dos vendedores que passam oferecendo as maiores quinquilharias ou para engraxar seu sapato.

Por falar nisso, engraxate aqui é um profissional de primeira necessidade. Você pode passar sem médico ou advogado, mas jamais sem um engraxate. É tanta poeira que se acumula, que a rua Muski, que leva ao bazar, forma pequenas dunas nas laterais.

Não tenha medo de se perder pelas ruelas do Khan-el-Khalili -- longe da parte turística, quando você acha que chegou ao Quinto Mundo e alguém vai te seqüestrar e mandar para o Iraque, de repente aparecem lojas e mais lojas especializadas em jóias de ouro, luxuosamente decoradas, a poucos metros de vendedores de temperos vagabundos e carne de terceira. Não que você vá comprar alguma coisa, mas o contraste é delicioso.


O resto é clichê. A única coisa de original que dá para falar das Pirâmides é que tem uma rua asfaltada que passa no meio delas, e que todas as fotos que você viu até hoje são cuidadosamente enquadradas para que você não veja que a cidade já chegou até ali.

As Pirâmides são um circo -- e o melhor que você tem a fazer é entrar nele. Ande de camelo (é bárbaro) e tire todas as fotos do mundo. Tirar foto com as pirâmides ao fundo é como tirar foto ao lado de uma celebridade, ou conseguir um autógrafo com dedicatória. É para isso que você veio até aqui -- e depois que você revelar as fotos você vai esquecer do trânsito, dos ônibus de excursão, das paradas forçadas pela sua guia nos lodjinhas de essência de perfume, nos lodjinhas das escolas de tapetes e nos lodjinhas dos institutos de papiros.

Você vai se lembrar do chá de menta no El Fishawi, vai botar sua foto "piramidais" num porta-retrato e não vai precisar fazer força nenhuma para achar tudo o máximo.


E tem o pão. Acho que eu voltaria ao Egito só para poder comer o pão. É um cruzamento entre o pão de beirute e o naan indiano, levinho e levemente borrachento. Ideal para homus, tahines e babaganuches. Aliás, como deve ser a vida de quem não come homus e tahine todos os dias? Não consigo imaginar.

Cairo, 17 de novembro, 1998.