Postal por escrito: Bússios, Brassil


Pasme: eu nunca tinha ido a Búzios.

Por mais que me falassem da beleza brigitte-bardônica / luíza-brunética de suas praias, e do charme mediterrâneo do seu centrinho, eu nunca conseguia deixar de considerar as dificuldades transamazônicasde se chegar até lá.

De carro, saindo de São Paulo, são pelo menos 8 horas de estrada e de força de vontade para não ficar pelo caminho, em alguma praia do litoral norte de São Paulo, ou então em Paraty, em Mauá ou mesmo no Rio.

Pode-se ir direto de avião com o pacote da Pantanal -- mas você tem que ir num domingo e voltar no outro, como coisa que Búzios ficasse lá em Fernando de Noronha.

Resultado: para passar um simples fim-de-semana ou um feriadão, o turista paulista (eu) tem que investir numa ponte aérea, cacifar um carro alugado e emendar mais duas horas e meia de estrada. Ou seja: um esforço comparável ao de ir a outro país. Com efeito -- ao chegar você se dá conta de que aportou en la Ar-rentina.


Os hermanos estão por toda parte. Inclusive do outro lado do balcão: existem argentinos donos de restaurantes, de lojas, de pousadas, até mesmo servindo cerbêça e vendendo artessanato na praia. Mas a ocupação é pacífica e bem-educada. (Paulistanos em Maceió fazem mais barulho.)


Mesmo que todo mundome dissesse que Búzios anda cheio (e não só de ar-rentinos), eu nunca poderia imaginar que estivesse tãocheio -- até porque eu não tinha idéia de que coubessetanta gente na península. Mas, multidões à parte, eu gostei de Búzios o suficiente para saber que é imperioso voltar na baixa temporada -- quando a atração maior do pedaço deixe de ser o agito e volte a ser a limpidez da água e a delicadeza do recorte de suas praias.


Sim, é lindo. Não, não é à toa que tem tanto rico com casa de veraneio por lá. Aliás, é muito difícil obter informações sobre onde ficar e a que praias ir, porque todo mundo para quem você pergunta parece que ficou hospedado na casa de um amigo rico, e por isso ia sempre à praia em frente à casa dele. Eu sou a única pessoa que eu conheço que teve que abrir o Guia 4 Rodas e se entender com aquela montanha indistinguível de pousadas. Aí vai então o que eu consegui deduzir em três dias de vida real:


A melhor localização para sua pousada é no Morro do Humaitá: você fica a 5 minutos a pé da Rua das Pedras, sem precisar ouvir a noite inteira o barulho da Rua das Pedras. E de dia fica livre para ir de carro -- ou de aquatáxi -- à praia que quiser. Algumas das pousadas do Morro do Humaitá: El Cazar, Casas Brancas, Doce Mar, Byblos, La Langouste, Vila d'Este.


A praia mais bonita, para mim, é a Brava, por ser virgem de urbanização e ter apenas um quiosque (muito simpático, por sinal), no alto. De lá você pode pegar a trilha para a minúscula praia oficial de nudismo Olho de Boi -- mas além de nudista você precisa ser não-fumante e não-cardíaco para agüentar as subidas da ida e da volta.

A prainha mais charmosa, disparada, é a Azeda, acessível por trilha ou por aquatáxi (um pedalinho motorizado a R$ 2,50 por pessoa; a saída é do píer no início da Rua das Pedras). A praia é pequeninha, a água é transparente, o serviço de bordo é bom, e fora de temporada deve ficar inclusive vazia.

A praia com a melhor infra, no meu modesto entender, é João Fernandes, onde os quiosques imperam, mas pelo menos são de bom gosto.

O troféu decepção ficou com a praia de Geribá, que se não ficasse em Búzios poderia ficar no Guarujá ou na Barra da Tijuca. Mas é a praia da moçada, do footing e da paquera; a versão diurna do fervo da Rua das Pedras. Menos mal que da extremidade esquerda da praia você pode atravessar para a encantadora praia da Ferradurinha, que é quase tão bacana quanto a Azeda. (Não confunda com a Ferradura, que vale mais a pena para o seu eventual amigo rico que tenha casa lá.)


Com a abertura do aeroporto de Cabo Frio, talvez ainda este ano alguma TAM ou Rio-Sul dessas resolva fazer uma escala por lá. Senão, a alternativa mais fácil de ir a Vússiostalvez continue sendo pegar um charterem Buenos Aires.

Búzios, 25 de janeiro, 1999