Postal por escrito: Budapeste, Hungria
Para seu conhecimento: não, o Danúbio
não é azul. No máximo, é verde-escuro --
e olhe lá.
Mas só os mais pentelhos vão reparar
nisso. A função do Danúbio em Budapeste não
é ser nome de valsa, mas servir como desculpa para a construção
de quatro pontes lindíssimas que ligam a montanhosa Buda
à plana Pest. É tudo tão grandioso -- o rio,
as pontes, o palácio em cima do morro em Buda, o parlamento à
beira-rio em Pest -- que você se arrepende de não ter trazido
seu helicóptero e sua câmera 180 graus.
Longe do Danúbio, a beleza de Budapeste
é menos aparente. Budapeste é como se fosse uma mulher com
um vestido chiquérrimo, porém puidíssimo. Tão
puído que você demora para perceber que ele já foi
chiquérrimo.
Não, não: melhor que isso. Budapeste
é uma cidade que você acha num brechó. Você
vai lá no brechó de cidades, cata, revira, fuça,
e de repente, olha que maravilha: você encontra Budapeste.
Daí você pega Budapeste, mostra para
as suas amigas, e ninguém acredita como você pagou tão
baratinho por uma cidade tão esplendorosa. Mas, definitivamente,
é uma cidade de segunda mão. Lindíssima, mas
de segunda mão. Ótima para você jogar assim com uma
cidade muito chique ou muito clássica, tipo Paris ou Viena, e dar
aquela quebrada no visual.
E para você que esperava que depois de 10 anos
de capitalismo Budapeste ficaria igualzinha a qualquer cidade grande da
Europa, uma ótima notícia: não ficou não.
O povo continua relativamente pobrinho, não
se vêem manifestacões conspícuas de novo-riquismo
ou de máfia russa na rua, e o comércio lembra muito o da
Calle Florida (pré-Menem). A cidade conseguiu se ver livre
do mau-gosto comunista, mas definitivamente não decidiu virar Barcelona
da noite para o dia. O que faz desta Budapeste uma cidade muito interessante
do que se resolvesse virar uma Barcelona da noite para o dia.
As telecomunicações húngaras
estão superdesenvolvidas. Dá até para ligar do orelhão
para o Brasil. Pois fui eu aproveitar o maldito avanco das telecomunicacões
húngaras, telefonando de um orelhão para Pedro Paulo
Sena Madureira, meu editor, quando me vi INTIMADO a voltar correndo,
tipo ontem, para os preparativos de lancamento do livro -- abortando,
desta maneira, a parte chique (Praga-Paris-Bilbao) desta viagem.
(Tripulação, preparar para o desembarque.)
Budapeste, 22 de setembro, 1998
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