Postal por escrito: Bora Bora
Com exceção de suítes presidenciais, não existem quartos de hotel mais caros que os bangalôs sobre palafitas da Polinésia.
É uma pena. Porque se em vez de ocuparem suítes presidenciais mundo afora, os presidentes viessem passar férias por aqui, as autoridades competentes finalmente entenderiam quais são os requisitos básicos para uma vida digna sobre palafitas -- a saber:
O bom de passar uma temporada num bangalô sobre palafitas em Bora Bora é que, se de repente todos os seus cartões de crédito resolverem executar suas dívidas simultaneamente, você já sabe como é morar sobre palafitas, e por isso está preparado para o que der e vier.
Os bangalôs sobre palafitas da Polinésia são a solução anos 90 que os grandes grupos hoteleiros encontraram para o melhor aproveitamento de terreno à beira-mar, sem precisar construir estrupícios verticais.
O que não impede que daqui a 20 anos alguém encontre uma solução arquitetônica mais discreta, e os hotéis sobre palafitas passem a ser considerados estrupícios horizontais. Mas até lá, o negócio é aproveitar: "benhê, acho que os seus ovos mexidos estão vindo naquela canoinha!".
De todo modo, o encanto da Polinésia é muito anterior à febre das palafitas.
O que faz das ilhas polinésias um destino absolutamente especial é o kit dois-em-um de paisagens praianas que normalmente só são vendidas em separado: morros verdejantes, à la Rio de Janeiro, dividindo os mesmos cartões postais com lagunas azuis-clarinhas, à la "Lagoa Azul" (Brooke Shields not included).
Os morros são picos originados pela erupção de vulcões hoje extintos. As lagunas se devem a formações de corais que se fixaram na borda da caldeira dos vulcões, ocasionando inacreditáveis degradês de azuis e verdes -- do mais transparente ao mais escuro, variando de acordo com a incidência da luz e a profundidade do mar.
A propósito, apesar da única contribuição polinésia ao vocabulário internacional ser a palavra tabu, eu não me surpreenderia se os franceses só tivessem cunhado o termo degradê depois de se deixar hipnotizar pelo mar daqui.
A ilha do Taiti -- cujo nome erroneamente é atribuído a toda Polinésia -- abriga os hotéis grandões e as praias menos interessantes.
Existem os fãs de Mooréa e os partidários de Huahiné -- mas a ilha polinésia com a montanha mais famosa, as lagunas mais bonitas e a melhor assessoria de imprensa é, sem dúvida, Bora Bora.
Encravado no centro de Bora Bora, o Monte Otemanu é o Pão-de-Açúcar da Polinésia (apesar de se parecer mais com a Pedra da Gávea, olhando de um lado, ou com o Dois Irmãos, olhando do outro). Para admirar toda a sua imponência, sem arredar pé da varanda do bangalô, o mais indicado não é ficar na ilha propriamente dita -- mas sim hospedar-se com vista para Bora Bora.
Os hotéis da última onda -- sobre palafitas, naturalmente -- estão situados em atóis (motus) em torno da caldeira, a uma distância extremamente fotogênica da ilha.
Dentre esses novos hotéis -- e baseado nas impressões de uma volta de barco ao redor da ilha -- o Bora Bora Pearl Beach Resort (o mais recente) parece ter uma laguna mais bonita que a do Bora Bora Lagoon Resort (o que você está acostumado a ver na Caras), que por sua vez parece ter uma laguna mais interessante que a do Méridien Bora Bora.
Na ilha-ilha, as palafitas melhor localizadas são, disparado, as do Moana Beach Parkroyal, seguidas pelas do Sofitel Marara (que está construindo um anexo num motuem frente). O Club Med não tem palafitas, mas tem um motuparticular para excursões e piqueniques.
O Hotel Bora Bora, da rede Amanresorts, não tem o mesmo brilho dos endereços Aman do Sudeste Asiático. Mesmo assim, é o local indicado para quem é alérgico a cadeiras de plástico, piscinas à la Cancún ou CNN no quarto. Seus bangalôs sobre palafitas, no entanto, são poucos e escondidos numa ponta feiosinha do hotel -- de modo a não poluir visualmente a lindíssima praia de Matira, de areia branquérrima e água azul-transparente. Melhor do que um bangalô sobre palafitas, aqui, é cacifar uma cabana (faré) de frente para o mar.
E se o seu sonho polinésio não incluir pagar por uma diária de palafita em Bora Bora o que custaria compraruma palafita numa ilha menos famosa?
Basta fazer como os franceses (que têm pelos seus francos um carinho bem maior do que os americanos têm por seus dólares e os japoneses por seus yens): ignore olimpicamente os hotéis-palafitas, e reserve um quarto numa das pensões familiares da ilha.
Um quarto com banheiro comunitário na Chez Nono, na mesma praia de Matira do Hotel Bora Bora, sai por 65 dólares a noite (na mesma pensão, um bangalô sem palafitas, mas com banheiro, sai US$ 110). (Para saber outros detalhes práticos, clique aqui.)
Tudo bem: você não vai saber como é a vida de um favelado-chic -- mas em compensação também não vai correr o risco de virar um quando chegar a conta.
Bora Bora, 3 de janeiro, 1999
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