Postal por escrito: Berlim, Alemanha
No Havaí eles recebem você
com colares de flores. Na Bahia, com fitinhas do Senhor do Bonfim. Em
Berlim, deveriam receber a gente com capacetes. Tipo assim: uma alemãzona
totalmente reunificada recepcionaria cada vôo, distribuindo, do alto
de seu guindaste, capacetes de PVC laranja com dizeres em preto: RECUERDO
DE BERLIN (souvenir que é souvenir tem que vir em espanhol).
Não, não é força de expressão
dizer que Berlim atualmente é um imenso canteiro de obras. Seria
força de expressão dizer que Berlim é uma imensa
caçamba de disque-entulho, ou que a melhor maneira de se locomover
por Berlim é alugando um andaime com motorista. Mas não,
eu não vou dizer isso. Só vou dizer que Berlim é
atualmente um imenso canteiro de obras.
Visitar uma cidade em reconstrução
não chega a ser um transtorno para a maioria dos turistas, já
que, acredite se quiser, ELES VEM AQUI PARA ISSO.
A atração mais visitada da cidade é
a Info-Box, um posto de observação para as obras
faraônicas da Postdamer Platz. O prefeito de Berlim deve ter feito
um curso de marketing com Jaime Lerner, porque além do terraço
para ver guindastes trabalhando, existe uma exposição multimídia
permanente detalhando todas as obras que estão sendo feitas na
cidade, num gentil oferecimento de Sony, Mercedes-Benz, Asea Brown Boveri
e outros conglomerados menos votados.
Resumindo, eles vão transformar o antigo vácuo
entre os dois muros de Berlim (os comunas construíram um segundo
muro, mais recuado, para poder brincar de tiro ao alvo com os fugitivos)
na mais formidável das Berrinis do mundo -- se é
que uma Berrini pode vir a ser formidavel -- e vão ligar esta super-Berrini
ao novo Palácio do Governo (também em construção)
por uma espécie de Esplanada dos Ministérios, versão
virada do milênio.
Mas a grande obra em curso em Berlim está
fora do campo de visão do turista comum. E não envolve construção,
mas reforma.
Berlim está em plena recuperação
-- SoHo-ização? -- de vários bairros ao mesmo
tempo. Imagine se São Paulo acabasse num muro construído
na Avenida São João. Daí um dia o muro vem abaixo,
e a cidade descobre que um pouquinho mais adiante, aquilo que todo mundo
pensava ser apenas a Zona Leste na verdade era uma Buenos Aires -- caindo
aos pedacos, mas uma Buenos Aires.
Resultado: a cidade está se mudando inteira
para o leste (para onde o povo que morava no leste foi eu não sei;
quem sabe para a Polônia).
Na Mitte e em Prenzlauer Berg, edifícios
em total estado de decrepitude se misturam com prédios impecavelmente
reformados e outros em obras, com andaimes (sem motorista) e telas de
proteção. Essa mistura de escombros com novo-de-novo, Pompéia
com Marais, aliada ao charme decididamente alternativo de grande parte
dos cafés e restaurantes que foram para lá, faz com que
(por enquanto) não se sinta tanto cheiro de yuppismo no ar.
Com tanta construção e reforma na cidade,
aqui deve ser o melhor lugar do mundo para ser peão de obra. Mas
em vez de turcos trabalhando para mandar dinheiro para suas famílias
na Turquia, a maioria dos peões de obra que eu vi aqui são
alemães mesmo.
Então entendi. Com tanto peão
de obra alemão trabalhando e mandando dinheiro para suas famílias
na Alemanha, vai ver por isso que a Alemanha é tão rica.
Berlim, 16 de setembro, 1998
|