Postal por escrito: Assuã, EgitoMuitos vêm a Assuã -- a cidade mais meridional do Egito, já em território núbio -- para iniciar seus cruzeiros pelo Nilo. Outros vêm para se bronzear no inverno; outros ainda para conhecer o lugar onde o Nilo é mais bonito. Eu não vim a Assuã por nenhum desses motivos. Eu vim a Assuã para me hospedar no Old Cataract. Exótico, cavernoso, enigmático, o Old Cataract parece saído diretamente de um romance de Agatha Christie -- e é. Morte no Nilo foi escrito numa de suas suítes, e usado como cenário tanto do livro quanto do filme. Mas não, o que faz do Old Cataract um hotel especial não é o seu currículo. O que torna inesquecível qualquer estada no Old Cataract é a sua localização, debruçado no Nilo, em frente à Ilha Elefantina, a vista emoldurada pelas dunas da outra margem. Coisa que talvez não significasse nada, se não fosse o seu estado de conservação. Intacto, com um ar de usado quando e onde necessário, o Old Cataract envelheceu com charme. Os banheiros foram modernizados, o que é sempre bem-vindo, mas as aberrações da arquitetura de hotéis pós-1940 estão todas fora do campo de visão do hóspede, reunidas em peso no estrupício anexo, equivocadamente batizado "New Cataract". O bar do terraço -- sem dúvida o lugar mais deslumbrante do hotel -- é todo colonial inglês, mas com panos folclóricos núbios servindo de toldo. O restaurante 1902 -- adivinha em que ano foi inaugurado -- tem pé-direito de teatro municipal e cenário de ópera, e talvez seja o lugar mais elegante onde eu já tomei sucrilhos com leite. Os feluccas (barquinhos tradicionais) que saem do seu ancoradouro para um chá ao pôr-do-sol no Nilo são os mais bonitos da corniche beira-rio. Você pode passar dias sem sentir vontade de sair de lá. Aliás, a única razão para alguém sair do Old Cataract e andar pela cidade é querer achar tudo feio e sujo e ameaçador. Se bem que poucas cidades resistiriam ao julgamento de um hóspede do Old Cataract que saísse do hotel para dar uma voltinha na vida real. E viva a crise do turismo no Egito. Em primeiro lugar, porque eu consegui meu quarto no Old Cataract com vista para o Nilo por meros US$ 135 (o preço de um 3 estrelas na Europa ou de um hotel de aeroporto no Cairo). E em segundo lugar porque eles merecem. Eu nunca vi lugar onde a vida do turista independente fosse tão dificultada. Nem na Índia, que eu achava ser hors-concours, a indústria de fazer estrangeiro de otário é tão desenvolvida. O problema aqui é que a incompetência vem disfarçada de ingenuidade, e a desonestidade, travestida de choque cultural. Como ninguém precisa ver as pirâmides ou entrar na tumba de Tutancâmon mais do que uma vez em cada encarnação, o turista vira um cachorrinho num campo minado de pulgas. E o pior é que, além de coçarem, as pulgas querem pagamento -- baksheesh -- por toda sorte de desserviços prestados, tipo por exemplo te chamar num cantinho da tumba de um Ramsés qualquer e informar: Sarcofagus! Very old! Só os turistas que se sujeitam a viajar bovinamente em grandes grupos parecem se salvar do assédio social. Mas em compensação precisam agüentar horas de conversa para faraó dormir. Você encontra com eles nos monumentos, no meio das aulinhas dos guias, e percebe na cara deles que tem muita gente claramente perdendo um dia de sol no barco. (Já os guias que você contrata nas agências locais são bem mais objetivos -- afinal, tem que sobrar tempo para passar nos três lodjinhas onde ele é comissionado). E se você for visitar o Templo do Sol de Ramsés II, em Abu Simbel (parênteses: vá. É um escândalo de bonito. Pode ser o ponto alto de sua viagem ao Egito. Quatro colossos de Ramsés II visíveis a léguas de distância, e um interior tão interessante quanto os das melhores tumbas do Vale dos Reis), aqui vai uma dica valiosa. Não tente voar a Abu Simbel e de lá prosseguir para o Cairo, porque não existe lugar para guardar as malas nem no aeroporto de Assuã nem no de Abu Simbel. (Os guias das excursões tomam conta das bagagens dos grandes grupos, mas o viajante independente fica dependendo da boa vontade dos caras da Egypt Air.) Quando você for, faça assim: fique uma noite em Assuã. Voe a Abu Simbel. Volte no próximo vôo a Assuã. E fique mais uma noite no Old Cataract. Por mim. Assuã, 21 de novembro, 1998. |