Postal por escrito: Arpoador Inn
Só existe um pedaço de praia em todo o Rio de Janeiro onde não passa uma avenida entre os prédios e a areia: a ponta do Arpoador. É impossível andar por aquele trecho do calçadão e não sentir inveja das pessoas que moram naqueles predinhos e têm o mar mais famoso do mundo praticamente dentro de sua sala de visitas.
Espremidinho no meio desses prédios existe um hoteleco de cinco andares, muito simples, que oferece quinze janelas para o Arpoador. Seu nome é Arpoador Inn, e toda vez que eu passava na frente eu pensava: ainda vou me hospedar aí.
Não que eu tivesse muitas expectativas. Era só olhar, do calçadão mesmo, para o salão do café da manhã, que fica no térreo, para ver que o ambiente já estava pedindo uma reformazinha. De qualquer modo, a relação preço-qualidade parecia ser muito boa: a R$ 110 por um quarto duplo com café da manhã e o mar dentro do seu quarto, eu topava relevar qualquer frescurinha de turista burguês.
No final dos anos 70, o Arpoador Inn era a garçonière dos freqüentadores do Antonio's, bem como seu endereço temporário em tempos de separação. Hoje o Arpoador Inn é território gringo: quase todos os hóspedes com quem você topa no café da manhã ou nos corredores são estrangeiros que seguiram os conselhos dos guias, que invariavelmente classificam o hotel como a melhor opção "budget" de todo o Rio.
E é -- desde que você reserve um dos quartos de frente para o mar, finais 1, 2 e 3. Quanto valem o mar azul e as Ilhas Cagarras perfeitamente enquadradas no centro da sua janela? Quanto vale o barulho (e põe barulho nisso) do mar na hora de dormir? Certamente, muito mais do que R$ 110 por noite. Mas daí começam os descontos. Depois de descontar o estado da mobília, descontar o desinfetante perfume mofodos corredores e descontar o sachê de banheiro que deixa seu quarto inteiro com perfume de chiclete tutti-frutti, você chega à conclusão de que R$ 110 é justo para você e para o dono do hotel.
Os outros quartos, apesar de mais baratos (R$ 75 de frente para a rua Francisco Otaviano, R$ 65 nas laterais), não valem tanto a pena. Se é para não ter vista, é melhor ficar no Ipanema Inn, que pertence à mesma "cadeia", é tão barato quanto, porém tem melhor localização (rua Maria Quitéria, a meia quadra da praia de Ipanema, entre os postos 9 e 10).
E para vocês não me acusarem de ser muito chato ou exigente demais, preciso dizer que o café da manhã é dos melhores que eu já tomei no Rio (superior a hotéis mais caros, como o Marina e o Sol Ipanema). O hotel deve ter uma cozinheira nordestina, porque o que tem de doce no buffet não é brincadeira: queijadinha, pudim, bolo de aipim, enfim, todas aquelas coisas que dão aquele empurrãozinho que faltava para você ir correr na praia.
Resumindo: se você estiver preparado para a simplicidade das acomodações, vale a pena se hospedar num apartamento de frente para o mar. Mas, se você tiver grana, o que eu recomendo mesmo é que você compre o hotel inteiro, faça uma big duma reforma e reabra como se fosse um hotelzinho de South Beach.
Arpoador, 18 de abril, 1999
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